Brasil: ITV pronta para o mercado internacional

O Brasil pode tornar-se um dos principais intervenientes no mercado internacional da indústria têxtil e de vestuário, apesar da ameaça da crescente concorrência da China. Beneficiando de uma indústria algodoeira completamente integrada, o Brasil também está a investir num projecto de grandes dimensões no poliéster para desenvolver a sua indústria têxtil de fibras não-naturais. O país também possui grupos de grandes dimensões que estão prontos a desenvolver no mercado internacional de denim, conforme nos relata Jozef de Coster nesta análise desenvolvida pelo Emerging Textiles. Considerando a sua dimensão (1,5 milhões de trabalhadores) e o potencial da sua cadeia de fornecimento, a presença da indústria têxtil e de vestuário brasileira no mercado internacional não é muito impressionante. Em 2005, a produção total nos sectores têxtil e de vestuário cifrou-se nos 26 mil milhões de dólares, dos quais apenas 2,2 mil milhões de dólares foram exportados. No entanto, o Brasil está pronto para assumir um papel mais significativo no panorama internacional. Até hoje, o Brasil, produtor auto-suficiente de fibras de algodão, era bastante competitivo em termos internacionais nos produtos algodoeiros, mas não nos artigos produzidos com matérias não-naturais. Esta situação poderá ser significativamente alterada com um novo projecto para o desenvolvimento da produção de poliéster, cifrado nos 750 milhões de dólares. Na base desta iniciativa encontram-se três produtores brasileiros de polyester (Polyenka, Vicunha e FIT) que vão participar na construção de uma unidade produtora de PTA (650.000 toneladas) e numa unidade de POY texturização (160.000 toneladas) em Suape, no Nordeste do Brasil. Os parceiros no investimento são o gigante petroquímico brasileiro Petrobras e a Mossi & Ghisolfi, produtor italiano de poliéster. Produção com início em 2007/2008 Em resultado do investimento em Suape, o Brasil vai ser capaz de produzir fibras e fios de poliéster a preços que se encontram ao nível dos produtores asiáticos, refere Jörg Dieter Albrecht, presidente das empresas Polyenka e da Abrafas (Associação Brasileira de Produtores de Fibras Artificiais e Sintéticas). A competitividade internacional do Brasil em produtos têxteis não-naturais vai aumentar significativamente. Em termos internos, este investimento reflecte-se na potencial criação de um milhão de novos postos de trabalho ao longo de toda a cadeia brasileira de têxteis, conforme foi referido por Albrecht. Intervenientes internacionais: Coteminas e Vicunha Existem relativamente poucos intervenientes internacionais entre as cerca de 30.000 empresas brasileiras de têxteis e de vestuário. No entanto, duas destas merecem especial atenção: a Coteminas e a Vicunha. No final de 2005, a Coteminas aliou o seu negócio de têxteis-lar com a norte-americana Springs Industries através de uma joint-venture, dando origem à Springs Global, a maior empresa integrada de têxteis-lar do mundo. Com uma actual capacidade de produção de denim de cerca de 12 milhões de metros por mês (cerca de 144 milhões de metros por ano), a Vicunha é provavelmente a maior empresa produtora de denim do mundo, estando presente no mercado comunitário há mais de 25 anos. Actualmente, com as vendas anuais na Europa a ultrapassarem os 12 milhões de metros, a Vicunha é responsável por cerca de dois terços das exportações brasileiras de denim e de tecidos lisos de algodão para o mercado europeu. Para além da Coteminas e da Vicunha, existem outros intervenientes de destaque. A Marisol, líder no mercado brasileiro de vestuário para criança, possui no seu plano estratégico para o período de 2005 a 2010 o objectivo de multiplicar as vendas actuais por um factor de 2,5 com base nos 174 milhões de dólares registados em 2005. Em 2010 as vendas deverem atingir os 435 milhões de dólares, considerando as actuais taxas de câmbio. A Marisol possui actualmente uma capacidade produtiva anual de 25 milhões de unidades de vestuário e de 3,2 milhões de pares de sapatos para criança. A Guarapes Confecções, o maior produtor de vestuário do Brasil, assumiu em 2005 a primeira posição como a empresa mais lucrativa entre as empresas cotadas na Bolsa de Valores de São Paulo. A Guarapes é um grande produtor (190.000 unidades por dia) de t-shirts, jeans, pólos, calções, etc., vendidos a baixo custo em mais de 15.000 lojas multi-marca em todo o Brasil. Cadeia têxtil brasileira O Brasil produz em média 1 milhão de toneladas de fio de algodão por ano, principalmente utilizando fundamentalmente as fibras de algodão obtidas localmente. O volume de fibras de algodão exportadas anualmente varia muito, desde as 30.000 até ás 300.000 toneladas. Também os volumes de importação registam uma significativa variação de ano para ano. Em 2002 as importações atingiram as 68.000 toneladas. Após atingirem as 120.000 toneladas em 2003, as importações diminuíram para as 106.000 toneladas em 2004. Em relação aos fios de algodão, o Brasil é um pequeno exportador (em média menos de 30.000 toneladas por ano) e um importador também muito diminuto (em média menos de 3.000 toneladas por ano). Os principais responsáveis da indústria brasileira de algodão estão confiantes de que são internacionalmente competitivos. Considerando a análise de custos elaborada pela ITMF, onde são comparados os custos no Brasil com a China e outros países, com a excepção dos fios e tecidos texturizados, o Brasil pode produzir fios de algodão e tecidos a preços mais baixos que a China. Elevadas importações de poliéster No entanto, o Brasil é um produtor relativamente débil de fibras não-naturais. Sendo a sua balança comercial nas fibras não-naturais cada vez mais negativa. Em 2004, as exportações brasileiras de fibras e filamentos não-naturais cifrou-se nos 150 milhões de dólares, enquanto que as importações atingiram os 497 milhões de dólares. Concretamente no campo das importações de poliéster, existe uma tendência alarmante. Em 2004 as importações abrangeram 49% do consumo brasileiro de poliéster, o que evidencia a tendência negativa relativamente ao volume de apenas 1% em 1992. Cerca de 85% das importações brasileiras de poliéster originaram na Ásia, com a Indonésia, Taiwan e China como principais fornecedores. O Brasil orgulha-se de ser o segundo principal produtor mundial de tecido de denim logo a seguir à China, o terceiro principal produtor mundial de malhas e o quinto maior produtor mundial de vestuário (mais de 10 mil milhões de peças em 2005). 200 milhões de calças de ganga De acordo com a ABIT (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), a produção mensal de denim atinge os 45 milhões de metros no Brasil, dos quais 10 milhões metros são exportados. É quase impossível medir o volume total de vestuário de denim que é produzido no Brasil, na medida em que os artigos são muito diversificados (calças, camisas, casacos, etc.) e as empresas praticamente não apresentam dados detalhados. A ABIT fornece apenas uma estimativa sobre a produção de calças de ganga: 204 milhões em 2004. O Brasil é também um importante produtor de vestuário íntimo e de banho. Em 2004 a produção brasileira de vestuário íntimo excedeu as 600 milhões de unidades e a roupa de praia os 200 milhões de peças. Em 2010, o Brasil quer exportar 4 mil milhões de dólares de artigos têxteis e de vestuário. Referindo as grandes diferenças em preço por kg entre fibras, fios e tecidos por um lado e artigos acabados por outro, Fernando Pimentel, Director da ABIT, apela para uma política de maior valor acrescentado.