Biomassa não é alternativa sustentável

Quem o afirma é a Stand.earth, uma associação ambiental, que aponta efeitos negativos, no ambiente e na saúde, da instalação de caldeiras de biomassa na indústria para substituir os combustíveis fósseis.

[©Stand.earth]

O estudo Biomass Burning: The Fashion Industry’s False Phase-Out destaca que, em vez de fazer a transição para alternativas de energia renovável, como a eólica ou a solar, vários líderes da indústria estão a adotar caldeiras de biomassa.

Ao contrário das alegações de que esta fonte de energia é sustentável e verde, o estudo enfatiza os riscos e danos inerentes associados à utilização de biomassa.

Citando o documento Letter Regarding Use of Forests for Bioenergy, assinado por cerca de 500 cientistas, que advertem os líderes mundiais sobre a utilização de biomassa como fonte de energia renovável, a Stand.earth sublinha no estudo que «há provas que sugerem que o aumento da dependência da biomassa por parte da indústria da moda não só ameaça o clima, os ecossistemas e a saúde humana, como também coloca riscos significativos para um empurrão mais vasto em direção à verdadeira energia renovável, sobretudo na Ásia».

A associação alega que queimar biomassa pode aumentar as emissões de gases com efeito de estufa nas cadeias de aprovisionamento das marcas internacionais de moda, uma vez que foi demonstrado que «gera emissões de carbono mais elevadas que os combustíveis fósseis convencionais, sobretudo quando se tem em conta o dióxido de carbono emitido durante as fases de cultivo, transporte e processamento».

Além disso, a crescente procura de biomassa está a levar à desflorestação, sublinha a Stand.earth, assim como à degradação de ecossistemas, perda de biodiversidade e concorrência à produção de alimentos. «Investigações mostraram que a procura por pellets e chips de madeira por parte de fábricas de vestuário de algumas marcas de moda internacionais alimenta o corte, transporte e venda ilegal de madeira no Camboja», onde cerca de um terço das 1.200 fábricas no país queimam diariamente, em média, 565 toneladas de madeira de floresta para gerar energia térmica, de acordo com investigadores da Universidade de Londres.

Por último, a queima de biomassa pode gerar problemas de saúde para os trabalhadores e comunidades locais, com a organização a citar problemas detetados em países como a Índia, a Malásia e o Camboja.

«Em conclusão, apelidar a biomassa como “neutra em carbono” ou “sustentável”, face aos riscos ambientais e humanos negativos associados à queima, é uma narrativa com falhas e enganadora. A adoção generalizada de biomassa nestas regiões tem riscos ambientais, para a saúde e para o clima alarmantes. Os riscos multifacetados da biomassa – das emissões de CO2 do ciclo de vida à degradação ecológica e perigos para a saúde – são demasiado significativos para negligenciar», refere o estudo.

O documento revela uma forte dependência da biomassa nas cadeias de aprovisionamento por parte dos gigantes da moda, com as principais marcas e retalhistas a afirmarem que as caldeiras de biomassa são limpas e sustentáveis, uma afirmação que, segundo a Stand.earth, carece de fundamentação credível. Depois da organização ter notificado as marcas sobre o relatório, a Fast Retailing respondeu com um acordo para reavaliar o uso de biomassa.

«O que interessa é que não existe “biomassa sustentável”», sublinha Xixi Zhang, investigadora na Stand.earth e autora principal do estudo. «A crescente dependência de caldeiras de biomassa coloca graves ameaças ao nosso clima, ecossistemas e saúde humana, ao mesmo tempo que dificulta a mudança essencial da indústria para energias renováveis ​​na Ásia», resume.

O relatório incentiva as marcas e retalhistas de moda – como a Fast Retailing, a Gap, a H&M, a Inditex, a Nike e a Puma – a tomarem medidas, como o fim da transição para a biomassa e mudança para fontes de energia renováveis, para se tornarem verdadeiramente sustentáveis.