Australianos querem taxar a fast fashion

Um novo estudo revela que o país é, atualmente, o maior consumidor de vestuário per capita do mundo e propõe que o governo siga o exemplo de França e crie um imposto sobre a fast fashion para reduzir o consumo.

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O estudo, do think tank Australia Institute afirma que o país ultrapassou os EUA como o maior consumidor mundial de têxteis per capita. Mais de 1,4 mil milhões de peças de vestuário novas chegam ao mercado australiano todos os anos e mais de 300 mil toneladas acabam em aterros ou são exportadas como resíduos têxteis, indica o estudo.

«Somos viciados em coisas que prejudicam a nossa saúde e o ambiente», afirma Nina Gbor, diretora do programa de economia circular e resíduos do Australia Institute. «Precisamos de reduzir drasticamente o desperdício na fonte, penalizando as marcas que produzem em massa roupa incrivelmente barata e de baixa qualidade, que muitas vezes é usada apenas algumas vezes ou nunca é vendida e vai direta para um monte», acrescenta.

O estudo concluiu que os australianos compram, em média, 56 peças de vestuário novas por ano, mais do que nos EUA (53), no Reino Unido (33) e na China (30), com um valor médio de apenas 13 dólares australianos (cerca de 8 euros), em comparação com o Reino Unido (40 dólares australianos), EUA (24 dólares australianos) e Japão (30 dólares australianos).

O inquérito realizado no âmbito do estudo mostrou ainda que quase 63% dos australianos estavam preocupados ou muito preocupados com o impacto ambiental dos resíduos têxteis, com 71% a considerar que as empresas devem ser as responsáveis pelo impacto, seguido dos consumidores (57%) e pelo governo (54%). Contudo, mais de metade (54%) não sabia que o poliéster, que representa mais de metade do vestuário vendido na Austrália, é produzido a partir de petróleo.

O documento afirma que sem uma redução drástica no excesso de produção e no consumo excessivo de têxteis, o problema dos resíduos na Austrália só continuará a crescer e argumenta que o investimento na produção nacional, em infraestruturas de reciclagem e a garantia de um mercado para produtos têxteis reciclados são essenciais para a criação de uma economia circular.

O estudo recomenda um imposto sobre a fast fashion tal como está a acontecer em França, assim como a proibição de exportações de resíduos têxteis, subsídios para a reparação de vestuário, investimento numa indústria têxtil circular e apoio a programas comunitários de reciclagem.

O Australia Institute afirma que a proposta governamental de um imposto de quatro cêntimos sobre vestuário, no âmbito do programa Seamless é um bom começo, mas, destaca Nina Gbor, «a taxa é demasiado baixa para mudar o comportamento das marcas Deve ser aumentado drasticamente para, pelo menos, 50 cêntimos por peça».

O estudo argumenta igualmente que o Seamless deve ser obrigatório, tal como os regimes de responsabilidade alargada do produtor (RAP) na Europa, e não voluntário.

«Estamos a vestir roupa de plástico feito de petróleo. Muitos destes artigos acabam em aterros ou são despejados em países do Sul, onde enchem os seus aterros, poluem praias e oceanos e contribuem para mais emissões. A Shein e Temu devem faturar, juntas, mais de 2 mil milhões de dólares americanos em vendas este ano. O Governo Federal [Australiano] poderia redirecionar alguns desses lucros para reduzir o desperdício de vestuário e financiar uma reciclagem doméstica e uma indústria têxtil circular», resume Nina Gbor.