As fusões azuis

A Uco e a Raymond criaram uma joint-venture (ver notícia PT) e a Travex Algodonera e a Santista Têxtil vão fundir-se (ver notícia PT). Da mesma forma, quatro grandes produtores de denim anunciaram há 14 dias atrás a sua fusão. Será um acaso ou uma consequência lógica dos desenvolvimentos do mercado de denim? Aempresa belga Uco NV e a indiana Raymond Ltd procuravam um parceiro com o objectivo de fazer face à crescente e cada vez mais forte concorrência. Esta foi a explicação dada pelo presidente da Uco, Phillipe Vlerick UCo, afirmando que não conseguia dar resposta às necessidades dos seus clientes, uma vez que a sua capacidade de produção parava nos 40 milhões de metros anuais, revelando-se demasiado pequena. O mercado de segmento superior, no qual operam os seus principais clientes, não podia crescer mais e a pressão sobre os preços aumentou. Com a ajuda da Raymond, os belgas conseguiram aceder aos mercados asiáticos e a categorias de preços mais baixos. Globalização A reconhecida e cotada na bolsa Raymond Ltd, cujo portfólio inclui também cosméticos e ferramentas, quer centrar-se mais na área dos têxteis. Actualmente a empresa está a aumentar a sua capacidade de produção de 30 para 40 milhões de metros. Com a ajuda da Uco, a Raymond quer reforçar e expandir o seu posicionamento no denim e tecidos para vestuário desportivo. A joint-venture está incluída na estratégia de «estabeleceralianças com empresas para “servir” um círculo de clientes mais abrangente e global», explica o director-geral da empresa, Hari Singhania. A joint- venture Uco-Raymond, cuja sede deverá localizar-se na Europa, terá uma capacidade de 80 milhões de metros, tornando-se assim num dos maiores fornecedores de denim a nível mundial. Também no caso da fusão da empresa espanhola Tavex Algodonera SA com a empresa têxtil brasileira Santista Têxtil SA, se trata de “abraçar” novos mercados. A empresa resultante da fusão, New Tavex, sedeada em Espanha, deverá ter uma capacidade de produção de 150 milhões de metros de denim e um volume de negócios de 418 milhões de euros. Será sem dúvida o maior produtor mundial de denim. «Numa época em que a globalização é eminente, é importante ter uma empresa que esteja bem estruturada em termos de trabalhadores, condições de produção e reservas financeiras», afirma José Luís Zabaleta, director comercial da Tavex. Ao observar os desenvolvimentos do mercado de denim nos últimos anos, pareceu prudente e sensato aos produtores alargar a sua dimensão, aliando-se a empresas com filiais nos principais países compradores. De acordo com dados da Tavex, a procura mundial de denim é de 4,6 mil milhões de metros, sendo a América do Norte, a Europa e o Japão os maiores compradores. Segundo a mesma empresa, as maiores quantidades de denim são produzidas na China. As empresas da “República do Povo” produzem anualmente 2,2 mil milhões de metros. O sudoeste asiático tem uma produção anual de tecidos de denim de 1,3 mil milhões de metros. A Europa é responsável por uma produção anual de 450 milhões de metros de denim, a América do Norte por 300 milhões e a América Central e do Sul contribuem com 800 milhões de metros. Deslocalização Devido ao boom do denim nos últimos anos, a procura e os preços até 2005 aumentaram significativamente. Simultaneamente, muitas empresas investiram na produção de denim e aumentaram a sua capacidade. De acordo com os especialistas do sector, deverá observar-se uma queda gradual da procura ou mesmo uma estagnação neste mercado. As consequências são um excesso de oferta, uma maior instabilidade dos preços e uma cada vez mais forte competitividade em termos de deslocalização. Os países denominados como clássicos produtores de denim, tais como a Itália, e a Turquia, sofrem uma pressão cada vez mais acentuada, uma vez que têm de competir com os preços do Oriente. «Um metro de denim do Paquistão ou da Índia custa actualmente entre 3,30 e 3,50 euros, incluindo o transporte, sendo o denim oriundo da Europa, pelo menos, um euro mais caro por metro», afirma Stefan Winter da Allfratex. O mercado premium oferece hipóteses elevadas de ganhar somas consideráveis, uma vez que os clientes ainda estão dispostos a pagar mais pelos tecidos inovadores. No entanto, este segmento constitui apenas uma ínfima parte do mercado total. De acordo com informações da Tavex, mais de metade (53 por cento) do denim produzido a nível mundial é utilizado em segmentos de preços mais baixos, 35 por cento deste tem como destino o segmento médio e apenas 12 por cento chega ao segmento premium. «Uma vez que o país de origem desta matéria será muito provavelmente a Ásia, existem apenas duas hipóteses de sobrevivência para as tecelagens europeias», afirma Norbert Hinderberger, do produtor turco de denim, Ortha, «ou eles próprios investem no Oriente, ou procuram um parceiro». Werner Steiler, representante da Santista na Europa, é da mesma opinião, «os custos de produção da Europa são demasiado elevados, isso acontecia com o nosso parceiro Tavex. Através da fusão foi possível baixar os custos e também reforçar a posição da Santista na Europa». Por um lado, as quantidades e, por outro lado, a proximidade dos mercados parecem ser as razões principais para a fusão das empresas europeias com outras além fronteiras. «O número de solitários vai diminuir, a força reside na união», afirma o responsável pelas exportações de um fornecedor europeu de denim. Omnipresença Os responsáveis pela empresa brasileira Vicunha Têxtil SA há muito reconheceram a importância de os produtores de outros continentes terem uma representação na Europa, «em 1999 abrimos uma dependência em Roterdão. Desde então vendemos 14 milhões de metros por ano», afirma Thomas Dieslich, director da Vicunha Têxtil Europa. A produção no Brasil permite oferecer preços competitivos e o armazém na Holanda permite uma entrega rápida. Os sinais do mercado mundial de denim apontam para uma mudança. Por essa razão as fusões da UCO/Raymond e Tavex/Santista estão longe de ser as últimas.