As 10 lições de 2005 – Parte I

Na primeira parte deste estudo, realizado por Mike Flanagan e publicado pelo Just-style.com, vamos ver as primeiras cinco lições que o autor retirou dos acontecimentos que marcaram o ano 2005, o qual assume uma significativa relevância para a indústria têxtil e de vestuário internacional. Mike Flanagan é o director executivo da Clothesource Sourcing Intelligence, empresa de consultadoria sedeada no Reino Unido que fornece aos compradores Ocidentais de vestuário informação sobre a produção, o comércio, a competitividade dos preços e acesso a produtores de vestuário em mais de 100 países. 2005 foi certamente um ano interessante. Para a maior parte das pessoas na indústria têxtil e de vestuário, o que sobressai no meio de todos os acontecimentos foram os altos e baixos que se verificaram ao longo do ano. A questão do «Compra! Oh não podemos… Ah! Agora já podemos» é algo que provavelmente não veremos outra vez, ou se calhar nem sequer queremos voltar a ver. Mike Flanagan acredita que as coisas podem apenas melhorar. Para além de toda a confusão, dez importantes lições sobressaem: 1.Os governos dos principais blocos comerciais podem merecer a confiança em determinadas questões de maior dimensão, mas não em questões mais pequenas. À medida que nos aproximávamos da eliminação das quotas e durante os momentos de histeria que se seguiram, os EUA e a UE seguiram de forma meticulosa o estabelecido em todos os acordos que tinham previamente acordado. Assim como os governos do México, África do Sul, Turquia, Canadá e Brasil. Quando esta adesão às regras originou que os países importadores fizessem coisas que os chineses não gostaram, a China barafustou. No entanto, não considerou, pelo menos não publicamente, uma única medida que fosse contra as regras da Organização Mundial de Comercio (OMC). Diversos observadores ingénuos previram todo o tipo de comportamentos irracionais e ilegais por parte dos principais blocos comerciais. Estes observadores estavam 100% errados: é possível confiar nos principais dirigentes governamentais para que respeitem as regras. Mas, se por um lado os principais blocos comerciais respeitaram a legalidade nas questões de maior dimensão, tal não se verificou nos detalhes. Um exemplo desta questão encontra-se no escândalo associado com os soutiens em meados de 2005, o qual originou milhões de soutiens e camisolas invendáveis amontoados nas alfândegas comunitárias com destino a clientes comunitários que nunca os iriam ver. Este facto não foi completamente resultado da gestão inadequada e arrogante da imposição de quotas por parte da UE. O governo chinês pode não ter sido tão arrogante sobre o assunto, mas o seu atraso em anunciar os mecanismos para a atribuição de quotas e a reduzida quota que atribuiu a diversas empresas, demonstra que quando se trata de incompetência e completa ignorância sobre como o negócio funciona, a China nada tem que aprender com a Europa. Podemos confiar que os principais governos mundiais vão seguir as regras, e que vão segui-las exactamente de forma a originar o maior caos possível. 2. Pode-se prever que os proteccionistas vão exigir toda a protecção que puderem. É mais difícil prever como os governos vão reagir. Entre 1994, ano em que as principais potencias comerciais concordaram abolir as quotas alfandegárias sobre os têxteis e o vestuário aplicadas contra os outros membros da OMC, e o dia 1 de Janeiro de 2005, data em que as últimas quotas foram eliminadas, a produção de vestuário localizada nos países desenvolvidos deslocou-se de forma quase completa para os países mais pobres. Sempre que uma regra foi modificada, as forças proteccionistas nos países ricos protestaram e pediram mais protecção. Os seus apelos foram quase sempre ignorados. Durante 2005 tudo isto mudou. A UE e os EUA empenharam-se em riar barreiras ao vestuário chinês. Nem todas estas barreiras ajudaram os trabalhadores do sector de vestuário na UE e nos EUA. Efectivamente, o seu principal efeito foi deslocar a produção para outros países pobres, assim como para outros não tão pobres como Hong Kong. Este facto teve o estranho efeito de forçar o governo de Hong Kong e da China a permitirem um aumento de emergência no número de trabalhadores emigrantes chineses para Hong Kong. Mas, independentemente do quanto perverso possa ser o efeito das barreiras comerciais, o facto é que aqueles que lutaram por elas ganharam desta vez. Ganharam porque o estado de espírito dos seus governos modificou-se significativamente. Daqui podemos concluir que os proteccionistas vão querer lançar mais barreiras em 2007 e 2008, anos em que as actuais medidas proteccionistas deixam de estar em vigor. A possibilidade de serem bem sucedidos depende fundamentalmente do estado de espírito dos seus governos. 3. A China não está isenta das leis da economia Ao escutarmos diversos comentadores ao longo do ano, uma pessoa poderia ser perdoada por acreditar que a China pertencia a um mundo muito diferente. Um mundo no qual as leis da oferta e da procura não tinham aplicação. É verdade que 36% da indústria têxtil chinesa é detida pelo Estado. Esta realidade surge apesar de que ao longo do último século, tem-se verificado que a detenção de uma empresa pelo Estado garantia a sua incapacidade de competir com quem quer que seja. No entanto, apenas 7% de todo o vestuário fabricado pelas empresas de vestuário chinesas provém de fábricas operadas por trabalhadores estatais. Para além deste facto, menos de 37% das matérias-primas utilizadas pelas empresas de vestuário chinesas tem origem em empresas estatais. Efectivamente, a China mantém-se como principal importador mundial de tecido e fio, ultrapassando os EUA em 2005 como principal cliente do algodão produzido nos campos da América do Norte. As empresas chinesas de vestuário são unidades detidas por entidades privadas, que adquirem as suas matérias-primas nos mesmos mercados que todos os outros. Os seus gerentes tomam as decisões que tomam porque são trabalhadores atentos, apesar de por vezes serem mal orientados. No início do ano, os responsáveis das empresas chinesas reduziram os seus preços porque sabiam que os EUA e a UE iriam reimpor quotas de importação e que um aumento nas vendas em 2005 iria ajudá-los a conseguir quotas de exportação maiores no futuro. Tinham razão em duas coisas: o Ocidente efectivamente impôs novas quotas alfandegárias e o governo chinês anunciou em sequência que as quotas para 2006 seriam baseadas nas vendas registadas em períodos anteriores. Os produtores chineses diminuíram os preços porque estavam inflacionados enquanto as quotas estavam em vigor. Em 2004, os preços médios do vestuário com origem na China para os EUA eram mais elevados que os preços de Hong Kong. A diminuição dos preços foi feita para níveis em que até no ponto mais baixo eram superiores aos preços praticados pelo Bangladesh. Agora os preços estão novamente a aumentar. Com o governo chinês a licitar as quotas para 2006 para algumas categorias chave por mais de 1 dólar por unidade de vestuário, os preços deverão aumentar ainda mais. 4. Não são apenas as empresas dos países ricos que deslocalizam a sua produção para países mais pobres. À primeira vista, a reacção chinesa mais surpreendente à reimposição das quotas foi o número de investimentos chineses realizados no exterior, desde o caso da China Worldbest na Tailândia até ao da Tianjin Textiles no Egipto. Afinal o objectivo de tudo isto foi não foi a criação de postos de trabalho para os milhares de milhões de chineses que esperam conquistar o mundo? Não. O aumento significativo das vendas de vestuário foi impulsionado pelos empresários chineses ansiosos por gerar receitas. Certos que as quotas anti-china não vão desaparecer em 2006, estes empresários querem bases de produção em países que não estarão sujeitos a novas restrições. Para além disto, muitos empresários chineses acreditam que a China não vai continuar a ser para sempre o melhor local do mundo para fabricar vestuário, o que eventualmente já se poderá verificar actualmente. Mas não são apenas os empresários chineses que deslocalizam as suas unidades de produção. No Sul da Ásia, diversas empresas estão-se a deslocalizar para outros países. Exemplos desta opção encontram-se na Brandix do Sri Lanca que está a ponderar abrir a maior fábrica de vestuário na Índia, e na Beximco do Bangladesh que está a pensar no Paquistão. O que é estranho, na medida em que quase todos no Paquistão estão a pensar deslocar-se para o Bangladesh. Algumas fontes referem que é por tudo ser mais barato, outras fontes de informação dizem que o governo paquistanês vai investigar fugas ao fisco, enquanto que outros pensam que é para beneficiar da ausência de taxas que o Bangladesh está a oferecer a qualquer um que se desloque para lá. E não se trata apenas de investir noutros mercados emergentes. A aquisição por parte da Grabal Alok’s de 16% das acções da britânica Hamsard 2353, holding para os retalhistas do QS Group, atraiu pouca atenção. No entanto, a oferta da indiana GHCL pela norte-americana Dan River atraiu muita mais atenção. A união entre o sector de têxteis-lar da brasileira Coteminas e a norte-americana Sringers Inc. foi mais um exemplo da eliminação das fronteiras em todo o mundo. No entanto, nem todas as empresas asiáticas que investem no estrangeiro estão necessariamente a tomar a melhor decisão. Os problemas enfrentados pela Ramatex, da Malásia, na unidade que possui na Namíbia, são um dos diversos casos considerados como negativos, assim como o da Tristar, empresa do Sri Lanca, com a sua unidade na África Austral. Assim como a israelita Delta Galil, que eliminou o seu investimento na América Central e a Nien Hsing de Taiwan também está prestes a sair do México. Em resumo: os empresários nos países em desenvolvimento querem ganhar mais dinheiro. Poucos estão preocupados onde ganham o dinheiro, e na indústria têxtil e de vestuário, desde o Bangladesh a Tianjin, os empresários têm a capacidade de fazer muito mais do que apenas contratar trabalhadores de baixo custo. 5. Existe um mundo para além dos têxteis Durante este ano, foi fácil acreditar que a esta indústria foi a mais importante no mundo. Após anos em que ninguém se interessou muito, fomos inundados por relatos dos estragos que foram feitos aos países mais pobres do mundo pela previsível quebra nas suas vendas de vestuário. E não há dúvidas de que existem países como o Nepal, onde os estragos se estão a registar à medida que as exportações de vestuário diminuem. Apesar de para esta quebra contribuir a existência de guerrilheiros maoístas a chantagearem as empresas têxteis e a bombardeá-las se não contribuírem o suficiente, para além de um rei que bane de forma arbitrária a maior parte das Organizações Não Governamentais (ONGs) sem qualquer motivo aparente. Mas o que é mais surpreendente é o pouco impacto que alguns dos problemas mais publicitados da indústria têxtil tiveram no mundo real. Por exemplo, as Maurícias iam ser a referência do mal que a globalização pode fazer, com a sua indústria de vestuário a fraquejar e a indústria de açúcar com o fim à vista devido a um significativo ajustamento nas regras comerciais. Tão prejudicado foi o país que a sua economia apenas registou um crescimento de 3% em 2005. Crescimento que é praticamente igual ao registado pelos EUA. As empresas de costura no México, localizadas ao longo da fronteira com os EUA estavam previstas desaparecer com a quebra das suas exportações de vestuário. No entanto, ao longo do ano, estas empresas mexicanas empregam mais pessoas do que alguma vez foi registado, mais 800.000 pessoas do que em 1998. A indústria têxtil e de vestuário tem assumido uma enorme relevância ao longo dos últimos 250 anos, servindo de apoio aos países para desenvolverem a sua base industrial. Mas, à medida que cada nova onda de países se afasta da indústria, as economias recuperam. O Reino Unido e os EUA, os dois países ocidentais com a menor base produtora de vestuário, também possuem o menor nível de desemprego dos países ricos. Os “tigres” asiáticos, como a Coreia e Taiwan, que desenvolveram a sua indústria têxtil e de vestuário durante a segunda metade do século 20, facilmente recuperaram os postos de trabalho que as suas indústrias deslocaram para outros países como a China e o Cambodja.