Aquisição da Sonix foi estratégica»

A história do grupo Diastêxtil confunde-se com o singular percurso da sua presidente e fundadora, Conceição Dias. Criada em 1984, a empresa-mãe Diastêxtil começou com 4 aprendizes de costura e cinco máquinas, uma das quais pilotada pela própria empresária. Hoje, esta self-made woman rege os destinos de 4 empresas – três em Portugal e uma na Tunísia, realiza um volume de negócios de 30 milhões de euros e emprega cerca de 400 pessoas, 143 das quais trabalham na recém-adquirida Fábrica de Malhas Sonix. E mantém-se fiel ao seu princípio: é em tempos de crise que se deve investir mais. Jornal Têxtil (JT) – Como surgiu a ideia de comprar a Fábrica de Malhas Sonix?Conceição Dias (CD) – Surgiu um pouco por acaso, embora tenha sido uma aquisição estratégica pelo facto desta empresa possuir uma tinturaria, que veio dotar o grupo Diastêxtil de uma estrutura praticamente vertical, abarcando tricotagen, tinturaria, acabamentos e confecção em malha. Não deixa de ter um lado anedótico, já que tudo começou há cerca de um ano e meio com o boato, sem qualquer fundamento, que o grupo tinha adquirido a Sonix. Isto provavelmente despertou a atenção da gerência que, em Novembro último, me contactou. A 21 de Março do corrente ano fechámos o negócio. JT – Quais foram as suas primeiras medidas enquanto nova proprietária?CD – Comecei por definir posições e tarefas dentro da empresa. Depois, reforcei a equipa comercial com duas novas contratações, passando assim de um efectivo de 141 pessoas para 143. Agora, encetei uma profunda remodelação da empresa em termos de actualização dos equipamentos, nomeadamente na área de tinturaria e da confecção, que vão exigir um investimento na ordem dos dois milhões de euros. Em suma, trata-se de implementar o mesmo modelo de gestão que possui qualquer uma das outras empresas do grupo, e que se tem revelado muito acertado.No entanto, nenhuma acção foi empreendida sem antes ter realizado uma análise séria do historial da empresa, dos seus métodos de trabalho, do seu posicionamento no mercado, do seu portfólio de clientes, …Tenho que sublinhar a grande cooperação e motivação demonstrada por todos os trabalhadores da Sonix, o que me motiva ainda mais a levar este novo projecto avante. JT – Que mercados-alvo busca para a "nova" Sonix?CD – Estamos a fazer uma selecção criteriosa dos clientes. Lembre-se que a Sonix atravessava já há alguns anos uma séria crise. Deste modo, os nossos mercados-alvo são um mixing entre os mercados onde a empresa era forte e aqueles onde o grupo Diastêxtil está presente, isto é a Inglaterra, os EUA, a Holanda e a Alemanha. JT – Para além de passar a dispor de uma unidade de tingimento e acabamentos, dispõe de um outro activo importante: a marca Sonix.CD – Com efeito, representa uma mais-valia para o grupo na medida em que não tínhamos nenhuma marca própria, e a marca Sonix tem já uma certa notoriedade no mercado. No entanto, é preciso dar-lhe uma nova imagem, mais em sintonia com os tempos actuais.A empresa apresenta ainda outras mais-valias como é o facto de permitir explorar novos segmentos de mercado para o grupo Diastêxtil, como por exemplo o vestuário interior, onde a marca Sonix chegou a ser uma referência. JT – Que empresas formam hoje o grupo Diastêxtil?CD – Para além da Sonix, o grupo possui três outras empresas: a Diastêxtil, sedeada em Barroselas e especializada na confecção em malha, a Modamalhas, localizada em Barcelos e que actua na área da tricotagem, e a Startex, uma unidade de confecção situada na Tunísia. No total, empregamos directamente cerca de 400 pessoas distribuídas pelas quatro empresas do grupo e, indirectamente, cerca de 2.500, já que subcontratamos correntemente cerca de 18 empresas de confecção em Portugal e 8 na Tunísia. JT – Como é que se transforma uma pequena unidade de confecção de 5 máquinas num grupo desta dimensão em pouco mais de duas décadas?CD – Com muito trabalho, boas práticas de gestão e uma aposta contínua na modernização das tecnologias e na inovação dos produtos. Comecei com 13 anos como aprendiz numa confecção de malhas, algo hoje impossível, mas que foi uma boa escola para mim. Essa sólida experiência profissional, associada a uma vontade constante de melhorar, levaram-me em 1984 a investir tudo o que tinha na aquisição de cinco máquinas de costura industriais, criando assim a Diastêxtil. Mas foi um percurso árduo e difícil, já que os primeiros clientes directos tardaram a chegar. No início, tivemos que trabalhar em regime de subcontratação para outras empresas… Hoje, produzimos cerca de 1.500 toneladas de malha e mais de 6.000 peças anuais de vestuário de malha exterior, e no último exercício fiscal apresentámos um crescimento de 15% comparativamente ao exercício anterior. JT – Quais foram os momentos-chave na evolução do grupo?CD – Houve etapas muito importantes como a primeira encomenda para exportação, que foi para a 3 Suisses, e o início do trabalho para a Next há 17 anos atrás, que acabou por se transformar no meu maior cliente. Mas os grandes "saltos" resultaram de aquisições e fusões que nos conduziram àquilo que hoje somos. A primeira foi a Rineiva, a empresa onde tinha começado a trabalhar aos 13 anos, que nos permitiu ganhar maior dimensão em termos produtivos. Depois, a compra das instalações da Mincalça permitiram transformar a Diastêxtil numa unidade de produção moderna e automatizada, com um efectivo que passou de 45 pessoas para 102. Em seguida, a aquisição da ex-CEE (actual Modamalhas) foi decisiva para a aposta na tricotagem. E a abertura da Startex, nas antigas instalações da Benetton na Tunísia, veio consolidar o nosso posicionamento no mercado. JT – Porquê deslocalizar para a Tunísia?CD – A redução das margens obrigou a repensar a nossa estratégia. Mas o desafio foi lançado pelo agente da Next, que tinha já escritórios neste país Deste modo, deslocalização para a Tunísia permite-nos servir clientes que não seriam possíveis com uma produção exclusivamente em Portugal. A unidade tunisina apenas realiza a confecção. Todo o processo de criação, desenvolvimento de amostras, corte e posterior controlo de qualidade, etiquetagem e embalagem é realizado em Portugal.É preciso deslocalizar a produção no nosso sector para manter a competitividade. JT – Tem outras aquisições estratégicas em mente?CD – O meu objectivo era dominar todo o ciclo do produto. Hoje isso já foi conseguido, graças à integração das áreas de tricotagem e de tinturaria e acabamentos. Agora, temos que crescer em subcontratos e em clientes, mas em infra-estruturas não. JT – Quais as grandes linhas pelas quais se pauta a estratégia do grupo?…CD – A minha estratégia é aquela considerada actualmente como menos correcta, mas é nela que acredito e que me permite ainda hoje crescer de forma sustentada: grandes quantidades, embora com margens mais reduzidas que outrora. Isto porque o modelo de negócio alterou-se por completo, na medida em que quem hoje já não somos nós que ditamos o preço mas sim o cliente. JT – …E quais os factores-chave do seu sucesso?CD – O principal factor-chave do sucesso do grupo é os seus recursos humanos. As pessoas vestem realmente a camisola da empresa onde trabalham, dando provas de grande capacidade de entrega e enorme flexibilidade. A maior parte deu os seus primeiros passos profissionais aqui, pelo que cresceram com a Diastêxtil. Por exemplo, das quatro primeiras trabalhadoras do grupo, duas ainda cá estão hoje.     JT – Os objectivos fixados para o corrente ano têm certamente a ver com a Sonix, não? CD – Obrigatoriamente, pois recuperar o sucesso "dos velhos tempos" representa um grande desafio. Dito isto, espero que em Setembro estejamos já a trabalhar a todo o vapor e, no final do ano, consigamos uma facturação com um incremento de 50% comparativamente a 2006, que foi de 5 milhões de euros. Mas a consolidação do crescimento do grupo Diastêxtil não deixa por isso de ser menos prioritária. JT – Prioridade para o grupo não é, todavia, o mercado interno.CD – Face aos preços praticados pelos chineses, não temos hoje qualquer hipótese de vingar no mercado interno. Deste modo, o grupo Diastêxtil está completamente vocacionado para a exportação, tendo na Inglaterra e nos EUA os seus principais mercados. JT – Domina todas as áreas industriais, desde a criação até à produção, passando pela gestão e a qualidade. Qual considera como área-chave?CD – A área-chave hoje é obviamente a criação, porque é aí que está o futuro. Aliás, apresentamos todas as estações uma colecção própria, com novas malhas e novos modelos. Mas uma boa gestão é a garantia do sucesso. A inovação é também fundamental, pelo que sempre procuramos fazer o que os outros não são capazes, por exemplo, em termos de complexidade de modelos.Em abono da verdade, gosto de todas as áreas, mas aquela que ainda hoje me dá maior satisfação é a dinâmica da produção. Sou aqui ainda hoje capaz de trabalhar com qualquer máquina, o que até acaba por ser bastante útil quando se trata de fixar objectivos de produção.

JT – Como encara o futuro da ITV em Portugal?CD – Se mantivermos bons equipamentos, elevada qualidade e prazos de resposta curtos, continuaremos a ter uma posição de supremacia, nomeadamente em relação aos países asiáticos. Aqueles que cultivarem isto terão lugar no futuro.