Aprovisionamento em tempos de crise – Parte 2

Conforme afirmou Mike Flanagan, director-executivo da Clothesource Sourcing Intelligence, na primeira parte deste artigo (ver Aprovisionamento em tempos de crise – Parte 1), diferentes fornecedores e retalhistas estão a registar desempenhos dissemelhantes e, embora o mercado do retalho esteja em quebra, não é lícito considerar que todos vão registar desempenhos negativos. Além disso, a queda de vendas induzida pela recessão – em especial nos EUA – não é a única questão em jogo. • A China não é a única a lidar com menos restrições ao seu comércio. O Vietname já não está sujeito a um pequeno procedimento chamado “auto-iniciação” para chegar aos EUA e, por isso, os importadores podem comprar a partir do Vietname com maior confiança. • Os EUA abandonaram os seus direitos alfandegários sobre as importações de meias das Honduras, facilitaram a utilização de tecidos asiáticos em peças produzidas no Haiti e implementaram o livre comércio com o Peru. • A União Europeia alargou o acesso isento de direitos ao Sri Lanka por mais um ano, desmantelou as taxas anti-dumping sobre a roupa de cama paquistanesa e reduziu as taxas aplicadas sobre o fabricante de fios sul-coreano Huvis. • O Japão anunciou a intenção de diminuir a dependência dos seus retalhistas de vestuário em relação à China, promovendo o aprovisionamento a partir do resto da ásia. • Em alguns países – como Quénia, Madagáscar e Nepal – a agitação civil causou graves perturbações na produção de vestuário nos últimos dezoito meses. Com as entregas adiadas, os compradores perderam a confiança e reconquistá-la vai provavelmente implicar uma longa caminhada. • Em todo o mundo desenvolvido, os retalhistas de vestuário especializados enfrentam mais concorrência das lojas de desconto e os seus lucros estão a ser atingidos pela crescente utilização da Internet para a aquisição de vestuário. A recessão teve impacto de diferentes formas. • Para começar, a crise chegou em duas vagas. Em primeiro lugar, o catastrófico desaparecimento do crédito em 2008 levou à falência de compradores e ao cancelamento arbitrário de encomendas. Esta fase dizimou um número incontável de fabricantes de vestuário mais vulneráveis nos países em desenvolvimento. Agora estamos na segunda vaga: a depressão nas vendas (que não significa um “afundar”) manifesta-se em vendedores nervosos, por isso as encomendas estão a ser atrasadas o mais possível e os compradores estão a espremer os preços. • O Reino Unido viu a sua moeda cair 35% face ao dólar em poucos meses, embora tenha registado recentemente uma apreciação de 18%. Os dados oficiais mostram que os seus retalhistas estão a vender mais roupas do que no ano passado, pois a redução selvagem dos preços significa pechinchas nas lojas de vestuário. • A moeda da índia está agora barata e, como resultado, as vendas para a UE e os EUA estão a crescer. Com efeito, tal como no Vietname, a recessão criou uma escassez de mão-de-obra. Os trabalhadores de vestuário migrantes regressaram a casa, à medida que as fábricas encerraram no início da crise, e muitos estão relutantes em regressar aos empregos da cidade, que são agora vistos como arriscados. • Atingiu de formas diferentes os diversos fabricantes de vestuário. No Bangladesh, por exemplo, continua-se a ouvir regularmente histórias de fábricas que encerram, incapazes de pagar os salários pendentes. No entanto, a maior empresa têxtil do país, a Beximco, juntamente com as suas filiais, afirma agora que saldou dívidas de 400 milhões de dólares (287,75 milhões de euros) em empréstimos pedidos em Fevereiro. As maiores empresas sobreviveram melhor à primeira vaga e estão em boa forma para competir na menos dramática segunda vaga. Este ambiente concorrencial, em permanente evolução, significa que não é a quebra nas vendas do retalho Ocidental que influencia o sucesso dos fabricantes. Muitos dos produtores mais fracos da ásia (como os das Filipinas e Cambodja) acham difícil e estão a registar declínios acentuados na exportação. Assim como as fábricas na Europa, áfrica e América Central. Mas as exportações de vestuário estão a crescer no resto da ásia e regista-se igualmente um crescimento num ou dois lugares que são hoje pontos fulcrais de aprovisionamento: Haiti e Laos. No total, as exportações de vestuário para a Europa, América do Norte e Japão a partir dos seis países asiáticos que representam 80% das exportações de vestuário da ásia (China, Indonésia, Vietname, Bangladesh, Sri Lanka e índia), aumentaram ao longo deste ano. A situação é, naturalmente, mais subtil do que isso: as exportações das Honduras para os EUA caíram, mas com a eliminação das restrições sobre as meias, é provável que o país se restabeleça como o maior fornecedor de meias dos EUA. E, com a produção mundial de vestuário cada vez mais concentrada nos seis grandes produtores asiáticos, menos roupas são feitas noutros países, fazendo com que a ásia já não exporte tantos fios e tecidos para os produtores na Europa, áfrica e América. é importante que os países pobres, cuja competitividade é prejudicada pela má logística, corrijam o pressuposto de que as lentas vendas ocidentais significam uma diminuição das exportações para todos. E é também importante para os comerciantes acompanharem a evolução e correlação de todas estas diferentes questões, para estarem sempre preparados a dar a resposta mais correcta.