Algodão transgénico não recebe acolhimento caloroso

O Mali é o principal produtor de algodão africano a Sul do Saara e encontra-se actualmente a ponderar a realização de experiências com algodão geneticamente modificado, um desenvolvimento que poderá originar o fornecimento de algodão a preços baixos para a indústria têxtil e de vestuário, conforme nos relata este estudo publicado pelo just-style. O algodão geneticamente modificado (ou transgénico) poderá permitir aos agricultores africanos aumentar as suas colheitas, melhorar a eficiência das plantações e reduzir os custos. Estes benefícios surgem na medida em que diminui a quantidade de insecticida necessária para controlar as doenças, conforme defendem as empresas que apoiam este tipo de algodão, como é o caso da empresa de biotecnologia Monsanto. Mas a resistência dos agricultores locais aos elevados custos das sementes e as dificuldades sentidas pelos produtores de algodão geneticamente modificado na África do Sul (único país a Sul do Saara onde o algodão transgénico é produzido para fins comerciais) podem significar que o potencial da África como um dos principais fornecedores está ainda longe de se concretizar. «Existem diversos países que expressaram interesse crescente (no algodão geneticamente modificado) incluindo: Egipto, Burkina-Faso, Mali, Nigéria, Zimbabué, Tanzânia, Uganda, Zâmbia e Quénia», de acordo com o referido pela ISAAA (International Service for the Acquisition of Agri-biotech Applications), o qual em conjunto com a Monsanto promove a utilização da biotecnologia na agricultura nos países em desenvolvimento. O Egipto já testou o algodão geneticamente modificado em instalações controladas, existindo a possibilidade de em breve realizar colheitas experimentais. O Burquina-Faso também desenvolveu experiências a este nível. Campo de batalha Mas é no Mali, actualmente o maior produtor de algodão na África Subsaariana e um dos países mais pobres do mundo, onde a batalha sobre o futuro do algodão geneticamente modificado se desenrola. O governo do Mali, o instituto de investigação agrícola do país (IER), as empresas de biotecnologia Monsanto e Syngenta, e a agência norte-americana de desenvolvimentos USAid juntaram-se para testar um programa a cinco anos com algodão transgénico. Mas os agricultores locais não acolheram o novo algodão de “braços abertos”. Efectivamente, a reacção local foi no sentido de que mais fosse feito para reverter a quebra nos preços internacionais da fibra, os quais conduziram a cortes no valor do algodão tradicional do país, semeado em 600.000 hectares semi-áridos do Mali. No início do ano realizou-se no Mali um debate público para discutir se o algodão transgénico deveria ser cultivado. O debate decorreu na cidade de Sikasso no Sul do Mali, região onde são produzidos dois terços do algodão do país. Os agricultores protestaram que as colheitas de algodão transgénico iriam resultar na dependência dos fornecedores ocidentais de sementes geneticamente modificadas e arruinar a sua produção de sementes. «Considerando que no Mali o número de produtores de pequena dimensão representa 98% da população agrícola e que a tecnologia (modificação genética da colheita) é apenas viável para produtores de grandes dimensões, os quais representam apenas 2% da população agrícola, esta nova tecnologia não deve ser implementada», acrescentou o International Institute for Environment and Development, instituto não-governamental com sede em Londres Com as eleições presidenciais a aproximarem-se, o governo do Mali não deverá apressar a resolução da questão do algodão transgénico na indústria mais vital para o país. Experiências controversas No âmbito desta questão, as eventuais experiências a realizar no Mali e noutros países africanos devem ser analisadas mantendo em perspectiva a relevância do cenário da África do Sul, cujas experiências com algodão geneticamente modificado continuam controversas. A África do Sul é o único produtor de algodão transgénico do continente africano, após mais de uma década desde as primeiras plantações da fibra serem semeadas em África. O algodão geneticamente modificado domina actualmente as plantações de algodão do país, representando entre 90% a 92% do total de 20.000 hectares de algodão plantado na África do Sul. Mas mesmo na África do Sul, os agricultores de algodão transgénico estão a registar problemas no fornecimento para a indústria têxtil e de vestuário internacional. Em vez disso estão a ser forçados a lutar pela sobrevivência contra as exportações chinesas de têxteis de baixo valor e dos fornecimentos ainda mais baratos de algodão tradicional exportado pelo vizinho Zimbabué, que regista custos laborais inferiores aos da África do Sul. O salário mínimo mensal para um trabalhador agrícola da África do Sul é de cerca de 150 dólares, de acordo com o departamento de agricultura da África do Sul. Por outro lado, os trabalhadores agrícolas do Zimbabué trabalham em troca de alimento e abrigo, à medida que o país cai no caos económico. «Sem as tecnologias transgénicas que os produtores estão a utilizar e que fornecem eficiências de produção, a indústria de algodão (na África do Sul) teria acabado completamente há alguns anos atrás», refere Andrew Bennett da Monsanto na África do Sul. «Não existem taxas de importação para proteger a indústria local, como existiam há alguns anos atrás. Os agricultores sul-africanos lutam para competir com os agricultores dos países vizinhos que não estão vinculados pelas leis que estipulam os salários mínimos», refere Bennett. A Monsanto, que detém a patente para o algodão transgénico Bollguard, promove a sua utilização com base no facto dos agricultores terem apenas de tratar a colheita uma ou duas vezes, em vez de seis vezes por época. Mas os resultados da plantação de algodão transgénico na África do Sul são disputados pela Biowatch South Africa, que argumenta o facto deste tipo de algodão ter servido para agravar em vez de aliviar a pobreza em Makhathini Flats na província de KwaZulu-Natal, onde se localiza a maior área de produção de algodão transgénico do país. A Biowatch refere que os produtores sul-africanos de algodão apresentam um montante superior a 3,2 milhões de dólares em dívidas, devido aos elevados custos das sementes transgénicas e à fraca pluviosidade.