Algodão cresce melhor no espaço

Experiências na Estação Espacial Internacional mostram que o algodão, especialmente o geneticamente modificado, cresce melhor no espaço do que na Terra, com os resultados a poderem ser usados para criar espécies mais resilientes.

Astronauta Shane Kimbrough com algodão cultivado na Estação Espacial Internacional [©NASA]

A pesquisa por pistas genéticas que permitam produzir plantas de algodão mais resilientes e que usem os recursos de forma mais eficiente teve novos resultados, com uma equipa de investigação a usar o Laboratório Nacional da Estação Espacial Internacional para estudar a resposta do algodão à microgravidade e ao stress.

A investigação da equipa da Universidade Wiscosin-Madison comparou como o algodão convencional e o algodão geneticamente modificado para resistir à seca crescem no espaço. Habitualmente, as plantas têm dificuldade em se desenvolverem no inóspito ambiente espacial, mas para surpresa dos investigadores, o algodão de teste, sobretudo a variedade geneticamente modificada, cresceu melhor no espaço do que na Terra.

Determinar exatamente o motivo do algodão parecer prosperar no espaço é um mistério que os investigadores vão agora tentar desvendar. Descodificar estas conclusões pode levar à produção de colheitas mais resilientes que aguentem as condições difíceis na Terra e mesmo as missões espaciais de longa duração.

«Se conseguirmos compreender um pouco mais como o algodão consegue crescer em locais estranhos, diferentes e difíceis, como a estação espacial, isso poderá ajudar-nos a tornar as colheitas mais sustentáveis e a crescerem melhor sob stress ambiental», acredita Sarah Swanson, diretora do Newcomb Imaging Center da Universidade Wiscosin-Madison e especialista em microscopia e biologia celular no Gilroy Life Science Lab, projeto de Simon Gilroy, líder desta investigação e professor de botânica na mesma universidade.

Mistério a desvendar

As raízes das plantas absorvem a água, mas na estação espacial, as raízes crescem de forma diferente porque não têm a gravidade para determinar o crescimento para baixo em direção à água no solo. Além disso, a falta de gravidade faz também com que a própria água não seja empurrada para baixo.

Simon Gilroy [©NASA]
«Levámos o algodão para um reino verdadeiramente alienígena, onde acontecem coisas que nunca aconteceram na sua biologia anteriormente», aponta Simon Gilroy.

O algodão foi cultivado em câmaras de plástico propositadamente feitas para isso, com a terra a ser substituída por um gel transluzente para fornecer os nutrientes, que permitia ver as raízes «para monitorizar o seu crescimento», explica o botânico. Em apenas alguns dias, as raízes começaram a crescer, em vez de para baixo, em espiral e longitudinalmente em busca de nutrientes, num efeito que é descrito como massa esparguete numa tijela.

O algodão mostrou um crescimento melhor no espaço do que sob condições controladas na Terra, sendo que o algodão geneticamente modificado viu crescer raízes maiores e sofreu menos impacto na viagem espacial, que foi feita na 22.ª missão de fornecimento comercial da SpaceX.

Como tanto o algodão convencional como o algodão geneticamente modificado tiveram um melhor crescimento no espaço do que na Terra, Simon Gilroy acredita que isso deve significar que o efeito de crescimento está diretamente relacionado com o ambiente no espaço e com a forma como foi cultivado. É possível, acredita o investigador, que os recipientes customizados tenham mitigado os efeitos do voo espacial e que outras características da microgravidade tenham encorajado o crescimento das plantas. Ou então tem a ver com o próprio algodão. Quando conseguir descobrir os motivos que levam a um maior crescimento no espaço do que na Terra, a equipa de investigadores poderá ser capaz de ajudar a obter melhores resultados no cultivo de algodão, tanto na Terra como no espaço.