Albano Morgado constrói tinturaria de raiz

A pandemia atrasou o projeto, mas a Albano Morgado está empenhada na nova tinturaria, que além de mais eficiente em termos produtivos, irá igualmente possibilitar a poupança de água.

Albano José Morgado

O investimento foi já anunciado antes da pandemia, mas tem avançado «a um ritmo mais lento», reconhece o CEO Albano José Morgado. «Houve um período em que teve de estar parado fruto de todas as contingências que a pandemia trouxe, nomeadamente os confinamentos – e aí esteve mesmo parado. Mas está, neste momento, numa fase final e a perspetiva que temos – e penso que essa agora já é mais concreta – é que, no final deste ano, o processo de investimento esteja completo e a tinturaria esteja finalizada», adianta ao Jornal Têxtil.

O investimento, no valor de 1,5 milhões de euros, inclui o edifício, construído de raiz, e maquinaria nova, tecnologicamente mais evoluída, que irá assegurar um nível superior de controlo de qualidade e reprodução de cores, graças a um processo totalmente automático de adicionamento de auxiliares e corantes. «Cerca de 60% do equipamento é novo e vai permitir-nos ter uma capacidade produtiva maior, nomeadamente na tinturaria em rama e tinturaria em fio», aponta. «O tinto em peça irá ter sensivelmente a capacidade que temos neste momento, embora com um equipamento mais moderno e atualizado – todo o equipamento, de uma maneira geral, tem um consumo menor de água», salienta Albano José Morgado.

Essa é, de resto, uma das preocupações que a produtora de lanifícios teve na conceção da nova tinturaria. «Vai permitir uma poupança grande em termos de gastos de água, que é o bem mais precioso que temos. É nossa preocupação dotar esta tinturaria com equipamentos mais económicos, quer a nível energético, quer, principalmente, a nível do consumo de água», garante o administrador.

Há já 15 anos que a Albano Morgado tem uma ETAR própria para o tratamento dos seus efluentes, com uma capacidade suficiente «mesmo para responder a este pequeno aumento da capacidade produtiva a nível da tinturaria», refere.

As preocupações com a sustentabilidade estendem-se igualmente à coleção. «Temos alternativas de corantes biodegradáveis, muito mais amigos da natureza e do meio ambiente», indica Albano José Morgado. «Temos também uma linha, que designamos Eco-Life, que é 100% natural, as cores são entre o branco e o castanho – é uma gama que nem sequer passa pela transformação a nível de cores na tinturaria», exemplifica.

A especialista em tecidos laneiros está ainda a desenvolver uma linha que recicla desperdícios. «São tecidos que têm uma componente de cerca de 20% de reutilização daquilo que há alguns anos era desperdício da empresa e que agora deixou de ser desperdício e passou a ser matéria-prima», explica o CEO, acrescentando que «vamos otimizar o processo e tentar obter a certificação a esse nível».

Uma mais-valia a somar à certificação Oeko-Tex. «São pequenos passos que nos permitem ir ao encontro das necessidades atuais e daquilo que são as perspetivas dos clientes», sublinha.

O lado prático de lã

A nova coleção, para o outono-inverno 2022/2023, está, de resto, alinhada com as expectativas do mercado. «A pandemia não trouxe só coisas negativas, trouxe coisas diferentes», considera Albano José Morgado. A empresa tem uma parceria com a designer Ana Duarte, da marca Duarte, que mostra que «se pode fazer roupa mais desportiva mesmo utilizando a lã» e os confinamentos no inverno trouxeram a ideia de que «o conforto da casa pode ser complementado utilizando peças práticas, funcionais, mas, ao mesmo tempo, quentes. A lã é uma fibra natural que confere, além de conforto, uma temperatura mais agradável», destaca o CEO. «Com a pandemia, todos nós criámos novos hábitos, uma nova perspetiva de vida e cabe-nos a nós, empresas, dentro da especificidade de cada um, apresentar produtos que vão ao encontro disso. No fundo, os clientes, com esta experiência negativa, acabaram por abrir outros horizontes. Temos é de estar atentos e ir ao encontro das suas necessidades», acredita.

Depois de três anos difíceis – logo em 2017, por causa dos incêndios de Pedrogão Grande, que ceifaram a vida a três trabalhadores e afetaram parte das instalações, e depois por causa da pandemia, em 2020 –, Albano José Morgado está mais otimista para 2022. «Tivemos uma quebra de cerca de 25% em 2020 em termos de volume de negócios, para pouco mais de 4 milhões de euros, o que considero que, tendo em conta as circunstâncias, foi aceitável. Penso que 2021 poderá ser um bocadinho pior», revela o CEO, sobretudo devido à ausência de feiras e também às comparações com o primeiro trimestre de 2020, ainda intocado pelos efeitos do covid-19. Já 2022 deverá ser o ano da recuperação. «Poderá não ser logo para recuperar a totalidade em 2022, mas estou convicto e confiante que no final de 2023 poderemos ter condições para estarmos de novo com os números que tínhamos em 2019, acima dos 5 milhões de euros», conclui.