A sociologia da Moda

No momento em que decorrem os mais importantes desfiles e salões de moda pelas principais capitais mundiais – Paris, Milão, Nova Iorque,… – compreender este fenómeno e os elementos que à sua volta gravitam é essencial. Para além dos comportamentos e das escolhas individuais, que nos fazem preferir uma peça em detrimento de outra, todos somos desiguais perante a moda. Esta obedece a comportamentos colectivos que importa compreender para poder dominar. Os sociólogos da moda distinguem 4 grupos de indivíduos: 1) Os “lançadores” (5%). Criadores, manequins, vedetas, artistas, snobs, todos vestem a moda que estará na moda dentro de, pelo menos, 3 meses. O seu comportamento pretende mostrar que fazem parte de uma elite. Todos têm consciência de não serem únicos, mas sim de pertencer a um clã, um grupo que deve continuamente distinguir-se da massa, estar acima das massas – o alvo de todos os olhares, de todas as conversas. Há um certo júbilo – e algum imperialismo – em “forçar” os outros a imitar-nos. Mas este grupo é auto-destruidor: como aquilo que busca é ser imitado, logo que isso sucede tem novamente que distinguir-se por uma “nova” moda. Este comprimento de avanço é também o que faz avançar o mercado. 2) Os “seguidores” (20%). Estes são recrutados entre as camadas mais abastadas da sociedade. Usualmente jovens, ávidos de sedução, aderem imediatamente à moda lançada. Mas este grupo é ambíguo: quer destacar-se pela sua elegância mas ao mesmo tempo ser discreto, tal como Brummell para quem «a verdadeira elegância não dá nas vistas». Os indivíduos que compõem este grupo reivindicam a sua pertença à elite social, embora os seus reais meios estejam muito aquém do poder de compra da classe líder. 3) Os “clássicos” (60%). Eles vestem tudo o que se transformou num clássico, um ano ou dois após a sua comercialização. A adopção de uma moda por este grupo significa o seu fim. Porque uma vestimenta adoptada por uma maioria da população não é mais uma moda, é uma submissão. Agora, vai ser necessário inventar “outra coisa”. A adopção pelo grande público de uma moda destrói o que esta tinha de inovador. 4)Os “fora de moda” (15%). Este grupo é sobretudo composto por pessoas de rendimentos modestos, que usam vestuário lançado há, pelo menos, 5 anos. Concentrar os olhares dos outros ou seguir uma certa corrente estética não faz parte das suas intenções. Da diferenciação á democratização Longe vai o tempo em que o vestuário reflectia a posição social. Os revolucionários franceses do século XVIII que aceitaram a alcunha dos “sem cuecas” tinham já compreendido que a aniquilação da nobreza também passava pela recusa da fatiota bordada, da peruca e das meias brancas. No século XIX, para distinguir-se da classe operária usando barrete e roupa de tecido vulgar, a burguesia impusera o chapéu alto e o fato preto como imagem de marca. O importante era mostrar, pelo valor do seu vestuário, a sua pertença à classe dirigente. Actualmente, como a noção de “luta de classes” perdeu importância, a moda acabou por democratizar-se. Quando as barreiras sociais caem por terra, os privilégios em termos de vestuário chegam ao fim. Deste modo, os fatos-macaco, as jardineiras ou as camisolas sem mangas são adoptados pela sociedade em geral como vestuário que veicula uma busca de conforto e não um estatuto social. As 10 leis da Moda Segundo Marc-Alain Descamps, especialista em Psicologia Social e autor de uma Psicologia da Moda, esta obedece a 10 leis: 1) Todo a moda reflecte directamente o nível tecnológico de uma sociedade. Exemplo: a moda dos collants de senhora foi somente possível com o advento da indústria da poliamida. 2) As condições de vida influenciam a moda do vestuário. Por exemplo, a exiguidade dos transportes comuns conduziu à extinção do chapéu. 3) Uma moda durável reflecte uma sociedade estável. 4) Uma mudança da moda corresponde a uma mudança social. 5) A aceleração da moda corresponde à aceleração das mudanças sociais. 6) A existência de uma única moda num país explica-se pela existência de uma sociedade homogénea. 7) A coexistência de várias modas num país pode significar uma não-comunicação entre classes sociais. 8) A classe no poder procura dominar a moda, mas a moda inspira-se das classes em ascensão. 9) O vestuário dos grupos (mulheres, jovens,…) reflecte o seu estatuto e condição social. 10) Inspiramo-nos sempre da moda dos países vencedores. A Moda, mais forte que a economiaQuanto à moda dos jovens, que se pauta sempre pela indiferença ao que decidem os “prescritores autorizados”, é testemunho do poder da moda, que é um fenómeno social global, afirmando a liberdade dos indivíduos face ao sistema económico que tende a dominar tudo. E que melhor demonstração de liberdade que a tripla jeans-t-shirt-ténis, verdadeiro uniforme mundial do planeta jovem.