«A procura por reciclagem têxtil está em grande crescimento»

Com mais de 70 anos de know-how acumulado, a Sasia tem sentido um acréscimo da procura de produtos reciclados por parte do mercado e, afirma Miguel Silva, CEO da empresa, está preparada para responder às necessidades crescentes.

Miguel Silva

Uma das possibilidades, avança, é um aumento da sua produção, atualmente de 2.000 toneladas mensais, caso seja necessário. Envolvida no projeto internacional RegioGreenTex, a empresa quer continuar a melhorar o conhecimento na reciclagem mecânica e avançar na área do pós-consumo, onde há ainda vários desafios a ultrapassar.

Que balanço faz do ano de 2023 para a Sasia?

O ano de 2023 foi um ano de retração a nível mundial, o que já era esperado, pois os últimos três anos foram atípicos. Em geral, 2023 foi um ano de grande diminuição de consumo, em grande parte devido à instabilidade da guerra e da inflação. Apesar de todos os desafios, conseguimos equilibrar os resultados.

Quais são, atualmente, os principais segmentos de mercado da empresa?

O mercado mais representativo continua a ser a fiação, em virtude de as marcas quererem cada vez mais fazer coleções mais sustentáveis, incorporando material reciclado. Por outro lado, também estamos em projetos com a indústria automóvel, que nos garante encomendas regulares.

Qual é a quota da produção destinada à fiação?

O mercado de fiação representa cerca de 40%. Há perspetivas de aumento devido ao desenvolvimento de novos projetos para reciclagem de novos materiais e misturas.

Também o facto de termos as certificações GRS e ISO- 9001 é um fator diferencial e que os clientes têm em consideração no momento de escolha.

Face à preocupação da indústria têxtil com as questões da sustentabilidade, tem havido uma maior procura?

Sim, o cliente exige produtos e processos mais sustentáveis e as marcas acompanham cada vez mais essas tendências para ir ao encontro das expectativas do mercado. O futuro da indústria têxtil está claramente direcionado para a valorização e implementação de práticas que priorizem a sustentabilidade.

Qual é a capacidade produtiva da Sasia?

A capacidade atual da Sasia são 2.000 toneladas/mês. Certamente que conseguiremos dar resposta ao aumento de procura, porém estamos preparados para aumentar a capacidade produtiva, se assim for necessário.

No ano passado referiu que a empresa poderia fazer uma aposta na reciclagem pós-consumo. Houve avanços nesse sentido?

Os avanços no pós-consumo foram escassos porque ainda nos deparamos com muitas limitações, como, por exemplo, a exigência do cliente em ter a fibra de qualidade idêntica ao algodão virgem, falta de processos de triagem eficientes e peças com muitos acessórios, várias composições, falta de regulamentações ou políticas que exijam das indústrias o uso de materiais provenientes do pós-consumo, contaminação e desgaste das fibras.

No âmbito do projeto de investimento de 10 milhões de euros que está a decorrer até 2025, que investimentos foram feitos pela empresa este ano?

Em 2023, a empresa realizou investimentos significativos ao adquirir duas máquinas de corte de última geração. Esses equipamentos possibilitam um corte extremamente eficaz e rigoroso nos mais variados materiais, sendo possível controlar a sua velocidade. Além disso, incorporam um detetor capaz de identificar diversos tipos de metais, aprimorando ainda mais a eficiência e a qualidade dos processos de produção.

Há investimentos pensados para 2024?

Em virtude da instabilidade a nível mundial, estamos a decidir o melhor caminho a seguir, mas certamente terá a ver com o pós-consumo.

A reciclagem química poderá estar no futuro da Sasia?

O nosso foco está direcionado para a reciclagem mecânica e não temos planos de explorar a reciclagem química. Optamos por concentrar o nosso know-how e recursos na área em que sempre trabalhamos. Acreditamos que a nossa contribuição para a sustentabilidade do sector têxtil se alinha melhor com esta abordagem.

Como vê o estado da arte da reciclagem em Portugal?

A procura por reciclagem têxtil está em grande crescimento, tanto em Portugal como no resto do mundo e a tendência é para aumentar cada vez mais, sendo as exigências e diretrizes da União Europeia um dos principais fatores.

A empresa está envolvida no projeto internacional RegioGreenTex, promovido pela Euratex. Tendo já passado alguns meses desde esse anúncio, já foram dados passos concretos?

A instalação da nova máquina de corte permitiu que trabalhássemos matérias-primas diferenciadas e temos feito diversas experiências para estudarmos novas aplicações do produto. O projeto tem uma duração de três anos e estamos a caminhar para resultados cada vez mais expressivos. Esperemos em breve contar com resultados mais concretos.

Que desafios sentiu no mercado este ano?

Como maiores desafios de 2023, realço a guerra, a crise energética, a flutuação de preços e a instabilidade económica a nível mundial. E agora deparámo-nos também com a instabilidade no Médio Oriente.

Quais são as expectativas para 2024?

Para 2024 prevê-se um ano instável, devido a todas as condicionantes que referi. Porém, estamos confiantes e a criar todas as condições necessárias para conseguir ultrapassar os vários desafios de uma forma positiva.