A nova face do proteccionismo americano

A mais recente forma de proteccionismo transforma do avesso a lógica convencional. Em vez de apelar aos países ricos para protegerem os seus mercados domésticos das importações de vestuário de baixo preço, a nova perspectiva do proteccionismo tem por base que os países em desenvolvimento devem limitar o comércio com estes importadores de baixo custo, de forma a preservar a sua própria indústria têxtil. David Birnbaum, consultor especializado na indústria têxtil e de vestuário, analisa esta questão num artigo publicado pelo just-style. Nós, na indústria de vestuário, sabemos tudo o que existe para saber sobre proteccionismo. Pode-se dizer que cada um de nós tirou o doutoramento nesta grande escola que é a experiência. Sobrevivemos a tarifas punitivas, quotas de importação, quotas de exportação e processos anti-dumping. Vivemos as estratégias mais subtis de proteccionismo, como as campanhas publicitárias da década de 1990, que apelavam ao consumo dos produtos norte-americanos em detrimento dos asiáticos, fabricados nos países comunistas da Ásia em locais sem as condições mínimas necessárias aos operários. Estas mensagens seriam mais credíveis caso as autoridades norte-americanas não tivessem realizado uma busca numa fábrica de vestuário em Los Angeles, onde as trabalhadoras asiáticas estavam praticamente amarradas às máquinas de costura. No meio de tudo isto, duas grandes realidades finalmente começaram a ganhar visibilidade, resultado da mentalidade proteccionista: Todas estas quotas, taxas e processos anti-dumping não conseguiram salvar qualquer posto de trabalho. Efectivamente, quanto mais alta foi colocada a barreira proteccionista, mais rápido foi o declínio da indústria doméstica e maiores as perdas de postos de trabalho; e A factura do proteccionismo é paga pelo consumidor, sob a forma de vestuário mais caro e de pior qualidade. E foi assim que, após 43 anos, o fogo do proteccionismo começou a desaparecer. Ou pelo menos era essa a ideia geral… A nova face do proteccionismo Uma nova forma de proteccionismo entrou recentemente em acção. Estes neo-proteccionistas já não argumentam que os países importadores de vestuário devem proteger os seus mercados domésticos contra a concorrência das importações. Eles argumentam que os países exportadores de vestuário devem proteger as suas exportações das exportações. Esta questão é ainda mais confusa do que aparenta ser. O argumento que se encontra na base desta perspectiva é que as empresas de vestuário dos países menos desenvolvidos e em desenvolvimento não conseguem competir, porque estes países possuem custos gerais elevados, os quais resultam das deficientes condições ao nível da logística e da infra-estrutura. Até que estes países sejam capazes de construir melhores estradas, redes ferroviárias, estruturas portuárias e alargar a rede eléctrica, este novo raciocínio neo-proteccionista vai continuar: os países importadores devem restringir as importações dos países mais produtivos (mais concretamente, da China). Trata-se de um argumento fantástico que facilmente pode ser traduzido para a realidade. É possível entender que se tente convencer um cliente da Wal-Mart no Arkansas para a necessidade de ajudar a manter os postos de trabalho dos trabalhadores da Carolina do Norte, evitando a aquisição de vestuário fabricado na China. Mas este argumento torna-se bastante mais complicado quando se tenta convencer um cliente a comprar uma peça de vestuário fabricada no Bangladesh em detrimento de outra fabricada na China, a qual é mais barata e com melhor qualidade, com o objectivo de ajudar a manter os postos de trabalho no Bangladesh. É óbvio que este argumento não vai funcionar. O plano dos neo-proteccionistas é ir directamente à Organização Mundial de Comércio (OMC) e colocar os têxteis e o vestuário numa categoria especial, onde o proteccionismo é permitido. No entanto, mais uma vez, a realidade entra em cena. A OMC funciona por consenso, na base do qual todos os membros devem estar de acordo. Na medida em que a China é um membro da OMC, vai ser muito difícil convencer o embaixador chinês a concordar com a aplicação de quotas sobre os têxteis e o vestuário com origem na China. O ponto fulcral em toda esta questão é que o proteccionismo simplesmente não funciona. Entraves à mudança Em primeiro lugar, os entraves mais importantes para a redução dos custos gerais dos países em desenvolvimento não são físicos. Uma boa logística é importante, assim como é importante a abrangência da rede eléctrica. No entanto, também é uma realidade que estas infra-estruturas custam dinheiro. No entanto, os maiores custos gerais estão relacionados com a corrupção, privilégios burocráticos e governos que não possuem qualquer interesse no desenvolvimento industrial. Reduzir estes custos adicionais é gratuito, tudo o que é necessário é que os políticos destes países roubem menos. Não se trata de acabar efectivamente com todos os roubos, o que à partida seria impossível, mas apenas diminuir o montante necessário para os subornos. Em segundo lugar, o proteccionismo não é o caminho para desenvolver as infra-estruturas. Na realidade, verifica-se o contrário. Suponha-se o caso de um governo que, por qualquer motivo, não quer mais estradas, não quer mais portos, e não quer alargar a rede eléctrica. A questão que se coloca é como conseguir implementar uma política capaz de concretizar estes objectivos? O primeiro problema surge com as pessoas do país que efectivamente querem estas infra-estruturas. Não se encontram em causa as necessidades ou a vontade da população em geral, mas apenas dos poucos que possuem capital suficiente para serem ouvidos, ou seja: os negociantes, os industriais e os empresários. O desafio passa por convencer estas pessoas a alinharem nos interesses do governo. Pelo que é necessário oferecer-lhes algo em troca das estradas, dos portos e das centrais eléctricas. Este algo são efectivamente as restrições sobre os países mais produtivos, as quais resultam da aplicação das quotas alfandegárias e garantem o acesso aos mercadores importadores independentemente das deficiências infraestruturais.