A Muns Py faz hoje 100 anos

«Se a Muns Py não faz, ninguém faz» diz a vox populi sobre a especialista em passamanarias. Afinal são já 100 anos, celebrados precisamente hoje, a fabricar uma panóplia de produtos que se pauta pela diversidade desde aquele longínquo ano de 1906. Garantia de know-how e experiência qb. O início do século XXI anunciou aquela que constituiu a maior mudança da empresa nos seus quase 100 anos de vida. Pela primeira vez na sua história, o seu destino é completamente regido por alguém externo à família Muns Py: Francisco Leite de Castro é, desde 2001, o homem forte da Miguel Muns Py- Têxtil S.A, ocupando actualmente o cargo de presidente do conselho de administração. O Portugal Têxtil foi conhecer as estratégias adoptadas pelo novo presidente que permitiram transformar a centenária empresa especialista em passamanarias num exemplo de modernidade e inovação. Portugal Têxtil (PT)- Recuando no tempo, era uma vez… Francisco Castro (FC)- …dois espanhóis, Pedro Villadelrat Miró e Miguel Muns Py que, no início do século passado, chegaram a Portugal para trabalhar na ITV nacional. Em 1906, os dois cunhados decidiram constituir a sociedade Miguel Muns Py & Cª. Lda., tendo começado por produzir atacadores e outras fitas. Esta especialidade ainda hoje se mantém como muito importante na empresa, tendo como principais clientes marcas de calçado nacionais- Campeão Português, Kyaia, Jefar- e internacionais- Camel. PT- Que razões estão subjacentes a esta bem sucedida longevidade? FC- Em primeiro lugar, o carácter pioneiro da empresa- a Muns Py foi, por exemplo, a primeira especialista portuguesa em fitas de decoração. Depois, a aposta, desde a primeira hora, na diversificação da gama de produtos. Para além dos dois já referidos, produzimos também fitas para fechos, onde temos como clientes todas as empresas de fechos nacionais, e fitas para confecção- com marcas de vestuário como a Dielmar como clientes. Mas chegamos a produzir lenços de seda e ligas de senhora no tempo em que Gaia era Gaya. E por último, mas não de menos, a cultura de inovação da empresa. A Camel, por exemplo, exige sempre atacadores Muns Py no seu calçado, porque considera que são os únicos que efectivamente repelem a água. PT- Quais as forças condutoras dessa cultura de inovação? FC- A Muns Py possui um know-how e uma experiência adquiridos ao longo de 100 anos de actividade. Deste modo, posso afirmar que o negócio não tem segredos, sobretudo em termos de tecnologias. Por consequência, a inovação hoje depende mais do valor criativo do que do valor tecnológico. E, neste âmbito, a maior influência vem seguramente da moda. PT- Mas o parque tecnológico da empresa é deveras impressionante. FC- A actualização contínua do nosso parque tecnológico sempre foi uma prioridade da empresa. Actualmente, dispomos de 25 máquinas de tecelagem para fitas de decoração, 78 máquinas para fitas de confecção (fitas de fechos, cetins, sarjas, etc.), 80 máquinas para cordões, 2 sistemas de corte de atacadores e colocação de ponteiras, uma máquina de inspecção de fita de fecho, uma máquina de tingimento em contínuo para fitas de confecção, 5 barcas de tingimento, 2 sistemas de engomagem de fitas de decoração, 3 máquinas de tingimento por auto-clave e 5 máquinas de acabamento de atacadores. PT- Qual a capacidade de produção anual? FC- Produzimos anualmente cerca de 18 milhões de metros de fita e 9 milhões de metros de cordões. PT- No entanto, a empresa cultiva hoje uma vertente cada vez mais comercial. FC- Com efeito, estamos presentes cada vez mais na venda de produtos complementares da decoração, em madeira e acrílico, sempre ligados ao universo das cortinas, tais como ilhós, varões, bengalas, rosetas, etc., recorrendo ao outsourcing– como sustenta Thomas Friedman, vivemos num mundo plano. Neste âmbito, comercializamos actualmente cerca de 750 produtos diferentes. PT- E para a Muns Py o mundo também é plano? FC- Cada vez mais. Os nossos fios vêm não só de fiações nacionais mas também estrangeiras, como por exemplo da Malásia. As nossas tecnologias de produção são essencialmente suíças (teares das fitas de decoração), italianas (sistemas de entrançamento dos atacadores) e alemãs (máquinas de tingimento). Os produtos químicos usados em tinturaria- somos a única empresa de passamanarias nacional que dispõe de uma tinturaria- são de origem alemã. Quanto aos artigos de outsourcing, as principais fontes são a Espanha e a Índia, para além de Portugal. PT- Ao longo deste século de actividade, quais as principais dificuldades que a empresa teve que enfrentar? FC- A maior dificuldade da Muns Py é actual, e a mesma que todas as empresas enfrentam: a livre concorrência. PT- E como é possível combatê-la? FC- Apostando na diversidade de produtos e de mercados. A primeira é inerente à filosofia da empresa, que sempre considerou a diversificação fundamental. Com efeito, a independência pressupõe a diversificação, independentemente da área em questão. Quanto à segunda, é hoje nossa prioridade alargar os destinos de exportação, que já representa 25% do nosso volume de negócios (cerca de 3 milhões de euros em 2005), e incluem hoje essencialmente a Europa Ocidental e Central, o Brasil e Israel. Para tal, temos procurado integrar programas como “Saber Internacionalizar”, organizado pela AEP, cuja primeira acção- uma visita ao Dubai- teve já lugar, e que inclui ainda formação na empresa, consultoria, seminários, etc. A presença nas mais importantes feiras do sector, como por exemplo a Heimtextil onde já participamos há mais de 10 anos com excelentes resultados, faz também parte da nossa estratégia de internacionalização. Além disso, estamos também a concorrer a programas no âmbito do Prime que nos vão permitir “refrescar” a nossa imagem, algo essencial quando se pensa global. Entretanto, tomamos outras medidas que nos permitem manter a competitividade no mercado mundial, tais como a racionalização de equipamentos e recursos humanos- nos últimos 5 anos conseguimos reduzir o efectivo de 97 para 52 pessoas- e o saneamento financeiro- que permitiu obter resultados financeiros positivos desde 2002. PT- Quais são as perspectivas para 2006? FC- Este ano temos melhores resultados comparativamente com o período homólogo dos anos anteriores, registando um crescimento de cerca de 20%. Deste modo, as nossas perspectivas para o corrente ano são bastante optimistas. PT- O que é que a Muns Py ainda não faz e gostaria de fazer? FC- Paralelamente aos produtos de decoração, gostaríamos de associar os serviços de decoração. Mas para já, a nossa prioridade é, como já referi, a internacionalização dos nossos produtos, pois é lá fora que podemos crescer mais. Sem todavia descurar a nossa política de diversificação, não só a nível de produtos e mercados mas também de fornecedores e clientes, fundamental para a sustentabilidade da Muns Py. PT- Preparada para durar mais 100 anos. FC- Uma empresa que atravessa dois séculos e duas guerras mundiais, que passa da monarquia para a república, que conhece a ditadura e a democracia,… de certeza que tem condições para perdurar no tempo.