«A JF Almeida quer estar sempre na linha da frente»

A empresa, que tem vindo a reforçar a aposta em matérias-primas sustentáveis e a adicionar novos produtos como os cobertores, está empenhada, segundo a administradora Juliana Almeida, em consolidar o negócio e explorar outros mercados.

Juliana Almeida

Os investimentos dos últimos anos, que rondaram cerca de 25 milhões de euros, permitiram à empresa entrar em novos segmentos de produto, sendo os mais recentes, apresentados nesta edição da Heimtextil, os cobertores e as cortinas decorativas. Além disso, a JF Almeida tem vindo a reforçar a aposta em matérias-primas mais sustentáveis, incluindo na sua oferta fibras Naia e Ecovero, fios reciclados produzidos dentro de portas, acabamentos impermeáveis para artigos de exterior e flanelas 100% liocel, revela a administradora Juliana Almeida. Com quase 750 trabalhadores, a empresa quer agora consolidar o negócio e explorar mercados como os EUA para continuar a crescer.

Quais são os destaques da JF Almeida nesta nova coleção?

Em termos de coleção, a nossa inspiração este ano é uma casa de Maiorca. Os tons são todos muito na base dos neutros. Temos algumas peças um bocadinho mais arrojadas, mas o foco da JF Almeida é a sustentabilidade e a questão dos produtos inovadores. Temos uma diversidade de produto muito grande, com uma forte aposta nas fibras inovadoras e sustentáveis. Uma das grandes novidades é a fibra Naia. Temos também EcoVero, cânhamos, linhos e flanelas 100% liocel – acho que devemos ser os únicos, no têxtil, com flanela 100% liocel, que usámos ainda nos pijamas –, assim como flanelas com o nosso fio 360, que é um fio reciclado, produzido na nossa fiação, em que recolhemos os desperdícios das várias unidades produtivas, fazemos a segregação, trituramos e fiamos.

Este ano, apresentamos ainda em estreia dois tipos novos artigos: os cobertores e as cortinas decorativas para a casa. Além disso, temos artigos impermeáveis com um acabamento especial a que demos o nome de Drytec Outdoor.  Se entornar água, não há qualquer tipo de infiltração.

Porquê agora os cobertores?

A JF Almeida quer estar sempre na linha da frente e procuramos incessantemente novos produtos, não só em termos de qualidade, mas também em termos de inovação e de sustentabilidade. Os cobertores surgem porque percebemos que temos internamente a possibilidade de os produzir, não só na nossa tecelagem, mas também na nova unidade de acabamentos.  Desta forma, conseguimos usar a nossa carda e a nossa lâmina e apresentar um novo artigo ao mercado que nos permite, obviamente, entrar em novos mercados e clientes. Atualmente, a JF Almeida já não é só uma casa dos têxteis-lar, é muito mais do que isso. Temos produtos que não são só destinados à casa e isso permite-nos ser mais versáteis e não estar tão dependentes de certos mercados e de alguns clientes. Mantemos a nossa estratégia de diversificação da carteira de clientes. Ninguém representa mais do que 10% na carteira de encomendas da JF Almeida. O nosso maior cliente representa 8% do nosso volume total de faturação. Desta forma também conseguimos garantir estabilidade.

Em quantos mercados estão presentes neste momento?

São muitos. O nosso maior mercado é o europeu e os países mais representativos são, sem dúvida, Espanha, França, Alemanha e Itália. A nossa forte aposta, com o lançamento da linha de roupa de cama, com grande enfoque nas flanelas, é  o mercado dos EUA, onde estamos com uma estratégia agressiva. Uma das máquinas que adquirimos para a nova unidade de acabamentos é a pensar no mercado americano.

Como é que se vai processar essa estratégia?

Feiras, ações de charme, uma série de coisas. É mesmo o mercado-alvo neste momento, nomeadamente pela dimensão. Nos EUA, os felpos não são muito representativos. Ou seja, vende-se, mas não quantidades nem valores astronómicos.  A roupa de cama, sim. E a nossa flanela é uma flanela de topo. Portanto, estamos a apostar num artigo de alta qualidade. Não estamos a entrar na luta de preço. Não vamos por aí. Porém, sabemos que é um mercado que demora, não é um processo rápido. Estreámo-nos, o ano passado, com as flanelas na primeira Market Week, em Nova Iorque. Este ano, vamos voltar a fazer as duas Market Week. E os cobertores também pode ser outro artigo que nos permita fazer volume nesse mercado.

Em relação aos mercados, de que forma têm evoluído?

Felizmente, no caso da JF Almeida, não temos sentido perda de volume de encomendas. Continuamos com o planeamento preenchido, no estado normal. Portanto, não temos sentido perda nenhuma a nível de encomendas no mercado internacional. No mercado nacional, certamente que sim, mas pouco trabalhamos, são mais serviços. Quando entrei para a empresa, há seis anos, o que acontecia era que os clientes programavam as encomendas e as entregas com muita antecedência, o que permitia às empresas ter um planeamento mais prolongado. Agora não. Ganhamos por ter reação rápida. Temos de responder em duas, três, quatro semanas, no máximo. Agora, estamos receosos em relação a este ano, ainda para mais porque fizemos fortes investimentos. Mas tudo indica que será um ano positivo, até porque temos artigo inovador e sustentável.  Não estamos na luta dos preços, estamos na luta da diferenciação, da qualidade, da sustentabilidade.

Há novos investimentos já pensados?

Para este ano não estão previstos novos investimentos, até porque temos uma empresa totalmente modernizada em todos os sectores. É mesmo consolidar e organizar a equipa. A única coisa que não temos é a estamparia digital, mas não é uma necessidade. Tudo o resto, fazemos dentro de portas. Queremos consolidar o crescimento, que foi muito nos últimos anos. Nos últimos dois anos, aumentámos em 200 o número de colaboradores – estamos com 749 pessoas. Temos de consolidar o investimento, organizar bem a estrutura e a equipa. E já temos trabalho que chegue.

Para além da unidade de acabamentos, que outros investimentos foram feitos?

Iniciámos o ciclo de investimento em setembro de 2021 e daí até janeiro de 2024, montámos uma confeção de roupões que era subcontratada anteriormente, montámos torcedores de fio, que também era subcontratado, montámos uma nova tecelagem, porque só tínhamos teares de larguras estreitas que apenas nos permitiam produzir felpo e agora também produzimos roupa de cama, e nova unidade de acabamentos. Também fizemos o investimento na parte de eficiência energética, em caldeiras de biomassa e painéis solares – temos 9.090 painéis fotovoltaicos, neste momento, e está em análise aumentar, mas não este ano.

Atualmente, qual é a quota de autossuficiência energética?

Representa, mais ou menos, 20% nos dias de maior exposição solar.

No total, quanto investiram nestes últimos anos?

Estamos a falar de um projeto de investimento superior a 25 milhões de euros.

Qual foi o volume de negócios de 2023?

Temos noção que houve uma quebra em termos de faturação no sector, algumas acentuadas. No nosso caso, não foi representativo. Tivemos uma quebra de faturação a rondar os 3%. No ano que foi, é bom. Fechámos em cerca de 57 milhões de euros.

Juliana Almeida

Para este ano, há objetivos de crescimento?

Há objetivo de crescimento de faturação, sem dúvida, sobretudo com o mercado americano e com a nova unidade de acabamentos, que presta serviços e só ficou operacional em outubro.

A procura tem sido grande?

Sim, tem sido boa. Neste momento, a percentagem de clientes é maioritariamente portuguesa, mas já estamos com projetos de entrar em novos mercados. Com esta unidade, esperamos faturar à volta dos 400 mil euros por mês, o que não entrou nas contas de 2023, porque foi fase de arranque e ainda estamos a tentar conquistar clientes. Os acabamentos vão servir não só para acabamentos para a casa, com esta aposta na roupa de cama e nos cobertores, mas também para serviços e existe um processo de angariação de clientes que sabemos todos que não é fácil. Mas, obviamente, que o investimento foi feito sabendo que temos empresas do grupo que acabavam fora e que, grande parte dessa percentagem que acabava fora, vai passar a acabar na JFA. Portanto, foi um investimento seguro. Não só pela aposta na roupa de cama, mas também por essas empresas do grupo. Foi um grande investimento, mas estudado e ponderado.