A herança esquecida dos Incas

Talvez o segredo de Machu Picchu, a cidade mágica inca no coração dos Andes, ainda não esteja totalmente revelado, tal como acontece com outros factos da cultura sul-americana na qual se inclui um país como o Peru. O mundo parece estar pouco informado sobre o know-how do tratamento das matérias-primas, das fibras de lã mais finas e da qualidade do algodão Pima da república dos Andes. Parece também desconhecer as empresas têxteis e de vestuário verticais totalmente integradas, especializadas em artigos de malha de segmento superior que produzem para marcas como Burberry, Lacoste, Tommy Hilfiger e Polo Ralph Lauren. Igor Rojas, responsável pelo sector têxtil e de vestuário da comissão para a promoção das exportações do Peru – Prompex- afirma que«muitos dos produtores e compradores não conhecem os nossos pontos fortes». Nos últimos dez anos as exportações nestas áreas mais do que duplicaram e no ano de 2005 foram exportados têxteis e vestuário num total de 1,2 mil milhões de dólares, na sua grande maioria para os EUA. Agora os peruanos procuram entrar na rota europeia. Os maiores exportadores querem aumentar a sua fatia de exportação de 10 para 30 por cento. “Cabelo de anjo” para a Europa Na opinião de Andrés von Wedemeyer, responsável do grupo de empresas Corporacion Cervestur, a maior vantagem do Peru é a qualidade. «Temos aqui matérias-primas únicas, que não existem em mais nenhuma parte do mundo, uma qualidade de produção a que se conjuga o know-how tradicional ao qual se juntam ainda as empresas mais bem equipadas». A sua empresa têxtil, Creditex, pertence a um grupo de empresas com um volume de negócios de 150 milhões de dólares, contribuindo a Creditex com uma fatia de 85 milhões de dólares para esse total. Nos armários de vidro dos showrooms climatizados da empresa é possível admirar camisas azul-celeste para a Polo Ralph Lauren, lilases para a Charles Tyrwhitt e verde menta para a Lacoste. Na fiação, tecelagem, tinturaria, estampagem e confecção trabalham cerca de 3.000 pessoas. «As pessoas chamam-lhe “cabelo de anjo”», revelao responsável pela área comercial, Kenneth Wilson, apontando carinhosamente para o “pêlo” branco que passa pelas máquinas de selecção. O algodão Pima é 50 por cento mais comprido do que o algodão normal, cresce no Norte do Peru e é quase todo transformado em 800 toneladas de fio, 60.000 metros de tecido e 180.00 camisas, produzidas mensalmente pela Creditex. A empresa quer aumentar a sua fatia de produtos acabados e a exportação para a Europa de 25 para 30 a 35 por cento. O ouro branco do Peru Uma vez por ano os peruanos fazem uma festa nos Andes e depois capturam as vicunhas para as tosquiar, passando a possuir uma das fibras mais finas e caras do mundo. «Das 150.000 vicunhas existentes no mundo, 90 por cento vivem nos Andes peruanos», estima Klaus Ackermann, responsável pelas vendas da Incalcapa, o maior produtor de lã do Peru. A sua empresa foi, até há poucos anos, o único produtor que tinha a autorização oficial para o tratamento da fibra oriunda das vicunhas. Entretanto as restrições foram reforçadas. «Mas somos os únicos que temos na realidade o know-how, uma vez que o tratamento desta fibra extremamente fina é muito difícil e só pode ser feito manualmente, sendo quase impagável». Uma camisola de vicunha pura custa cerca de 10.000 dólares. O grupo Michel, que tem uma quinta com 3.000 alpacas, produz 200.000 tonelada de fio por mês, dos quais 70 por cento são de alpaca e o restante de lã de ovelha. Há sete anos foi aberta a empresa de malhas, a dez minutos de carro da fiação, que produz para marcas como a Landsend, Fareway & Green, Kookaii e Hess Natur. A colecção de malha, Sol Alpaca, introduzida no mercado há dois anos, é vendida em seis lojas próprias e em lojas nos EUA, Austália e Europa. «Esse é o nosso futuro. A procura continua a aumentar», afirma Bruno Franco, director-geral. Na Posur está a seleccionar-se a alpaca, uma vez que chegou um novo carregamento. A empresa, sedeada em Lima, especializou-se na produção de partes de cima de vestuário para a China, Japão, Inglaterra, Itália e Alemanha. Cerca de 20 por cento das aproximadamente 2.000 partes de cima, que abandonam as instalações em cada dois dias, depois de terem passado pela fiação e pela malharia, serão vendidos por cerca de 30 dólares com o nome Alpaca Studio nas lojas próprias ou no exterior. «Queremos investir na verticalização e crescer sobretudo na exportação de artigos de malha», afirma o director César Lutgens. Esta foi a razão pela qual se uniu a 14 empresas de dimensões mais reduzidas, formando um cluster, financiado pela Incalpaca, Michel e por bancos. As capacidades das empresas ficam aglomeradas e a distribuição controlada. Desde que Ângela Cuzzi criou há três anos a rede de trabalho, as exportações das pequenas empresas da