A contra-ofensiva da lã

A popularidade da lã tem diminuído ao longo dos últimos anos, à medida que os produtores de vestuário optaram pelas fibras não-naturais. Mas, as mais recentes tecnologias e as novas aplicações poderão originar uma revitalização da lã, conforme refere este estudo publicado pelo just-style. A lã foi outrora a fibra de eleição indiscutível para o vestuário formal e para as roupas de Inverno, mas as fibras não-naturais de elevada qualidade levaram os consumidores cada vez mais a optarem por produtos mais leves. Para muitos produtores de vestuário a lã tornou-se pouco atraente, o que originou um impacto negativo para os produtores de lã. De acordo com o ABARE (Australian Bureau of Agricultural and Resource Economics) o preço da lã registou uma quebra de 30% desde 1990. No início da década de 1990, a produção mundial de fibras foi de cerca de 39 milhões de toneladas, das quais a lã correspondia a 5,2%. Em 2004, a produção mundial de fibras aumentou para as 58 milhões de toneladas, e a quota da lã diminuiu para os 2,1%. Existem diversas razões para a quebra de popularidade da lã. Uma das quais prende-se com o facto do vestuário formal ter perdido quota de mercado em favor do vestuário informal, originando uma diminuição da procura por fatos e casacos em lã. As famílias estão também a adquirir menos cobertores, tapetes, sobretudos e vestuário de lã em geral, porque as habitações estão melhor isoladas e cada vez mais as pessoas vivem e trabalham em ambientes com temperatura controlada. Aumento na venda de fibras não-naturais Mas talvez o factor mais significativo na perda de quota de mercado da lã foi o aumento da popularidade das fibras não-naturais. Num relatório sobre o futuro da lã, os economistas da ABARE referiram que: «Os tecidos sintéticos desenvolveram-se para conseguir as funcionalidades da lã (respirável, repelente à água e durável) mas também combinaram estas propriedades com a leveza e a suavidade (fundamentalmente perto da pele). O aumento da popularidade do vestuário leve de fibras não-naturais nas actividades ao ar livre é um destes exemplos». A actualmente inevitável malha polar é um caso de relevo onde um produto não-natural substituiu uma peça de vestuário tradicionalmente de lã (a utilização do termo ?malha polar? para descrever estes produtos é algo que incomoda significativamente os produtores de lã). De acordo com o relatório da ABARE, o futuro da lã é muito pouco promissor: «A inevitável conclusão é que as preferências e os gostos do consumidor mudaram e vão provavelmente continuar a mudar, pelo menos no médio prazo, com o algodão e as fibras não-naturais a serem cada vez mais preferidas em detrimento da lã». A contra-ofensiva da lã Independentemente desta visão mais pessimista, a indústria da lã australiana, um dos principais produtores mundiais, está a contra-atacar. O Australian Wool Innovation (AWI), centro de investigação fundado pelos agricultores australianos, está a desenvolver novos tecidos e a produzir fibras de lã mais funcionais com o objectivo de fomentar as vendas. Uma das principais estratégias da AWI passa por encorajar os produtores de sportswear a incluírem a lã na sua gama de produtos. Supõe-se que empresas como a Nike, Puma e a New Balance já exprimiram o seu interesse na lã e este poderá tornar-se um novo mercado importante. Danny Kane, responsável na AWI pelo projecto do vestuário de desporto, refere que: «O mercado de vestuário de desporto cifra-se entre os 40 e os 50 mil milhões de dólares ao ano e a lã detém uma expressão muito reduzida neste mercado. Este mercado encontra-se dominado pelo algodão e pelo poliéster pelo que se for possível conseguir até mesmo pequenos aumentos na percentagem de lã utilizada, tal será um impulso significativo para os produtores de lã». Os fabricantes de sportswear estão agora a analisar a possibilidade de utilização da lã, na medida em que as novas soluções ao nível da nanotecnologia e as novas empresas de malhas melhoraram as funcionalidades da fibra. A AWI refere que as suas fibras de lã merino de elevado desempenho possuem melhor gestão da humidade e uma secagem mais rápida, melhor protecção aos raios UV, melhor redução de odores e melhor repelência às nódoas do que as fibras não-naturais. A Peak Performance, marca de equipamento para ski, e a Patagónia estão a planear o lançamento de gamas de vestuário com lã merino na composição, enquanto que a Ortovox, está a planear utilizar a lã como forro para os seus casacos. Para além destas aplicações, num mundo mais amigo do ambiente, a lã é um tecido com potencial atractividade para os consumidores. Kane refere que: «Pensamos que muitos consumidores vão responder bem a possuírem sportswear fabricado com lã. Muitas pessoas gostam da ideia de vestirem fibras naturais e a lã pode agora dar-lhes as propriedades de desempenho que estão habituados com as fibras não-naturais». Foco na China À medida que a produção de têxteis transitou da Europa e da América do Norte para a China, o destino das exportações australianas de lã também se modificou. Em 1997/1998 cerca de 38% da lã australiana era exportada para a Europa e 22% para a China. Em 2004/2005, 20% das exportações australianas de lã foram para a Europa e 50% para a China. Como resultado desta nova realidade, a AWI está a investir mais tempo a trabalhar com os produtores chineses para o mercado interno e para o mercado de exportação. A AWI desenvolveu uma lã merino mais brilhante e mais suave em conjunto com a Novetex sedeada em Hong Kong, para utilização em vestuário de senhora e lançou a MerinoActive em conjunto com uma empresa designada Haitan, a MerinoActive é composta por 50% de lã e tem por objectivo o mercado da malha polar. A AWI também trabalhou com o retalhista chinês Heilan no desenvolvimento de um fato de lã lavável à máquina. O fato, que é composto 50% por lã australiana e 50% por poliéster, pode ser colocado numa máquina de lavar, uma propriedade importante num país com poucas lavandarias a seco. Ao longo dos próximos dois anos a Heilan prevê vender 100.000 destes fatos, principalmente para os jovens chineses da crescente classe média. O fato possui também um elevado potencial de exportação para outros países em rápido desenvolvimento, como é o caso da Índia. Inovações como estas deram aos produtores australianos de lã uma oportunidade para expandirem o seu mercado e, na medida em que os produtores de vestuário não são tímidos em relação a explorarem uma potencial nova moda, o futuro da lã aparenta ser mais promissor.