A “combinação” da moda

Naomi Watts pode trabalhar com uma combinação como ninguém no negócio da sétima arte, uma peça que ostenta no “remake” do filme King Kong. Tal como Ann Darrow, personagem interpretada pela espirituosa Naomi Watts, gira e dança como um brinquedo abanado pelo vento numa janela antes do poderoso Kong a cobrir com um pedaço de seda e renda. Ela é a última novidade numa longa procissão de sedutoras do grande-ecr㠖 pensar em Jean Harlow, Elizabeth Taylor, Faye Dunaway – a ter trazido o monstro na sua direcção enquanto se passeiam em combinação. Mas, apesar da sua proveniência glamorosa, a combinação é apelativa, pelo menos nas últimas décadas, apenas em filme. Fora do ecrã definha, está quase na fronteira de ser extinta, acima de tudo com uma imagem gasta, sobretudo por mulheres “vintage” como Elizabeth Taylor. «Há dois anos atrás não seria possível encontrar combinações na maioria das lojas», afirma Susan Hughes, directora de moda da Bloomingdale’s. Hoje em dia, os retalhistas contam uma história diferente, já que as combinações compridas estão a ser recuperadas pelas lojas, com a sua aura de sexualidade cândida ,coincidindo com o romantismo penetrante das colecções de Primavera. «Na Bloomingdale’s, que comporta versões da Betsey Johnson, DKNY e da Far West, as vendas têm sido fortes o suficiente para possibilitar acrescentar novas marcas e estilos para a próxima Primavera», revela Susan Hughes. Monica Miltro, a porta-voz da Victoria’Secret afirmou que a empresa aumentou a sua oferta de combinações em antecipação a uma “explosão” da procura. «Nós acreditamos que as combinações estão a emergir como uma grande tendência para o próximo Verão e até para o Outono», anuncia. E nas lojas de luxo como a Bergdorf Goodman e os populares sites da Internet de lingerie como Figleaves, novas encarnações proliferam, sendo que a sua maioria se apresenta com o charme antiquado intacto. «Estamos a começar a ver que uma nova geração descobriu as combinações», afirma Marshal Cohen, director de análise de retalho para o Grupo NPD, uma empresa de pesquisa de mercado. «Por agora, as combinações são um movimento cultural de mulheres que compram em lojas mais afluentes». Ele acrescentou que, acima de tudo, são mulheres sub 40 que mais procuram este artigo e que, há um ano atrás, nem pensariam em comprar uma combinação. Dado que a tendência está a emergir apenas agora, os resultados das vendas não estão disponíveis, mas Marshal Cohen prevê um aumento significativo nas vendas das combinações até à Primavera. Não sendo confundida com a habitual camisa de noite continua a gozar de uma saudável corrida ao retalho, a combinação é distinguida da “velha escola”, principalmente, como sendo algo para usar no quarto e não algo para usar à noite na cidade. O seu apelo é uma parte prática – fornece uma capa e um alisamento sob algo fino, às vezes aderente a tops e vestidos aparecendo nas lojas na Primavera – e em duas partes sensuais, evidenciado os contornos sinuosos, com várias interpretações retro, com rendas de casas de design como Janet Reger, La Perla, Natori e Jonquil. Tal como os vestidos de renda e tops de crochet, «as combinações são o contraponto virginal para coisas que eram um pouco sinistras para o Outono», sugere Ed Burstell, vice-presidente sénior e director-geral de merchandising da Bergdorf. As últimas combinações são realmente bonitas e inocentes, ainda que, paradoxalmente excitantes o suficiente para se equiparar, se não suplantar, a artigos como as camisas de dormir. «Todos esses artigos de duas peças levam a uma natureza algo “grudenta”», afirma Susan Rolontz, vice-presidente executiva da Tobé Report, um boletim do retalho. «A combinação é a nova versão primitiva do “sex-appeal”». Ela deve estar a descrever um dos mais modestos modelos de combinações de algodão da nova linha de lingerie da Vera Wang, que será introduzida na Primavera. Com as suas alças fininhas e finos debruns, é tão decentemente feminino como uma debutante. Alguns comerciantes dizem que este tipo de roupa interior tão suave e macio leva a doces e privadas fantasias. «Elas dão a algumas mulheres o sentimento de feminilidade e glamour», afirma Lauren Borish, uma compradora já mais velha da Figleaves. No último Outono, a empresa acrescentou vários novos estilos coquetes ao seu “stock” de combinações funcionais elásticas da Maidenform e Spanx. «As combinações têm um tipo de sofisticação, um sex-appeal que faz com que te sintas mais mulher», refere Lauren Martin, uma psicanalista de Nova Iorque. Ela mostra o seu guarda-roupa de tradicionais combinações sob blusas finas e saias com rachas. Rebecca Apsan, que apresenta muitas combinações de várias cores na La Petite Coquete, a sua loja de lingerie na Baixa de Manhattan, veste uma logo que chega a casa do emprego. «Faz-me sentir como a Liz Taylor no filme “Cat on a Hot Tin Roof” (Gata em Telhado de Zinco Quente). «Sim, sinto-me como a Maggie the Cat», acrescenta. Historicamente, Hollywood sempre mostrou o uso das combinações como sendo um símbolo contraditório de meninas e mulheres precoces, que desliza entre os pólos ordinário e de classe. Um subtil convite ao mau-comportamento, as combinações foram impressas nas consciências populares por estrelas como Liz Taylor, não apenas com a personagem felina no filme “Gata em Telhado de Zinco Quente”, mas também quando a usou elegantementenum modelo deseda e renda em “Butterfield 8”. Faye Dunaway pareceu glamorosa com a combinação e saia em forma de lápis no filme “Bonnie and Clyde”. Mais recentemente Reese Witherspoon estava “sensual” numa combinação de poliamida em “Walk the Line”, com a sua lingerie enrugada que deixava prever alguma “brincadeira” entre os lençóis. Fora do ecrã, as combinações caíram no esquecimento acelerado pelos anos 60. As mulheres pareciam vê-las como uma outra forma de se encobrir, tirando-a ao mesmo tempo que deixaram o soutien como forma de protesto. Scholars argumenta que a combinação começou, realmente, o seu declínio por alturas dos anos 50, altura em que as pessoas se passaram a fixar cada vez mais nos seios, com cada vez mais soutiens reveladores. «A elevada “timidez” da combinação, a irmã mais nova do vestido, já não impressionava os homens, agora entusiasmados com as “sereias” semi-nuas», escreve Farid Chenoune, autor do “Hidden Underneath” (Assouline 2005). Há vários anos atrás a combinação foi redescoberta, procurada em lojas “vintage” por jovens mulheres com uma inclinação para a lingerie estilo da avó. Algumas usavam-nas como vestidos, outras usavam-nas por cima de jeans ou cardigans. No final do ano passado, os especialistas em tendências começaram a mostrar as combinações nas revistas da especialidade. Impressionados pela imagem da Faye Dunaway em combinação no filme “Bonnie and Clyde”, Andrea Linett, a directora da Lucky, recriou o “look” na edição de Dezembro. Ela continuou na actual edição com um carácter de mostruário excêntrico com combinações salpicadas de flores e rendas: «uma estratégia alternativa», afirmou Linett, «ao soutien “push-up” e tanga».«As combinações são totalmente discretas», afirma. «E numa altura em que já nada mais choca, a discrição da combinação é o que a torna sexy».