45 anos de facilidades e 5 anos de loucura»

Em 1956, António de Almeida & Filhos, Lda. abriu as portas de uma unidade fabril que viria a marcar a história dos têxteis-lar. Estávamos num período que poderíamos baptizar de Revolução da Indústria Têxtil portuguesa, em que um punhado de empreendedores visionários criou um cluster regional de tecelagem que acabaria por constituir os alicerces de uma poderosa indústria nacional de têxteis para o lar. O Portugal Têxtil acompanhou Pedro de Almeida, actual administrador da António de Almeida & Filhos (AAF), por uma viagem no tempo marcada pela viragem do século, que coincidiu com uma viragem na estratégia da empresa que hoje se cose com as linhas mestras do management actual: cultura da inovação, consolidação das marcas próprias e controlo da distribuição. A pensar na globalização, na diferenciação e no futuro. Portugal Têxtil (PT) – Como foi que tudo começou? Pedro de Almeida (PA) – Tudo começou com uma unidade fabril especializada em tecelagem, de cariz familiar, que ao longo de todas estas décadas fomentou o crescimento do seu parque industrial, acabando por unir todos os elos a montante e a jusante da cadeia têxtil. No início, os produtos fabricados – tecidos básicos – tinham como destino o mercado interno e as colónias portuguesas em África. PT – Entretanto, a fiação veio complementar o processo produtivo. PA – A instalação de uma unidade de fiação surge somente cerca de 20 anos depois, e constituiu a primeira fiação open-end (OE) na Península Ibérica. Foi, todavia, muito difícil implantar o fio OE já que implicou ensinar aos nossos clientes novas formas de processamento e de acabamento. A fiação convencional surge apenas em 1982. E logo depois implantámos uma fiação OE com uma nova filosofia tecnológica. Em 1987 instalámos 20.000 fusos para fios penteados, e no ano seguinte renovámos a fiação convencional de fios cardados. A aposta em fios mesclas e fios de fibras celulósicas artificias sucede em 1994. É desta última aposta que nasce o evento da Tearfil “Be Happy”, em parceria com alguns dos nossos fornecedores e clientes. PT – O “Be Happy” deu visibilidade a uma cultura de inovação do produto na empresa. O que ditou essa aposta nos fios high tech? PA – Os preços da concorrência de países como a Índia, o Paquistão e a Turquia geraram dificuldades que impediam de conservar os preços necessários para sustentar a parte industrial. A escolha era entre tomar esse caminho de diferenciação ou fechar. Hoje, olhando em redor, constatamos que restam apenas aqueles que deram algum salto na cadeia de valor. Actualmente, somos procurados por todos os investigadores na área das fibras para parceiros dos novos desenvolvimentos e o seu lançamento no mercado. PT – A tecelagem acaba também por conhecer um processo evolutivo similar. PA – Ao longo dos anos procuramos sempre melhorar a nossa capacidade industrial na tecelagem. Em particular, a partir de 2004, sentimos necessidade de empreender o mesmo caminho feito pela fiação, do qual resultou o desenvolvimento de um novo projecto por uma nova equipa. Hoje, somos a única empresa que abarca todo o universo dos têxteis-lar, com 3 marcas próprias – Almeida, Home Concept e MB Blankets, a marca de cobertores que adquirimos em 2004. PT – Quais são hoje os concorrentes da AAF? PA – Não são certamente os chineses, paquistaneses ou indianos. Os nossos concorrentes hoje são Portugal, Itália, França e Espanha. É com eles que temos que batalhar. PT – Qual a principal diferença entre as marcas Almeida e Home Concept? PA – Tratam-se de marcas próprias trabalhadas de forma absolutamente diferente. A Home Concept é essencialmente uma marca global trabalhada no conceito shop-in-shop enquanto a Almeida não. No entanto, consideramos que há ainda espaço para a criação de uma terceira marca de têxteis-lar. PT – A Home Concept inaugurou já os seus shop-in-shops nos mais importantes department stores da Espanha e Dinamarca. Quais serão as próximas etapas? PA – Para além de ter shop-in-shops no Magasin du Nord (Dinamarca) e no El Corte Inglês (Espanha), a marca está também presente nos principais department stores da Finlândia (Stockman) e da Holanda (Bijenkorf). Para já, vamos abrir uma loja própria Home Concept em Barcelona, com espaços que podem ser disponibilizados em esquema de franchising com parceiros que se reconhecem no espírito da marca. Este ano, está nos nossos planos a sua entrada no mercado russo; e no próximo ano será a vez dos EUA e China. Até 2007, dominaremos todos os mercados que consideramos interessantes. E, dentro de 5 anos, esperamos ter entre 200 a 250 lojas Home Concept. PT – Como é possível um sucesso desta dimensão numa marca que tem pouco mais de dois anos? PA – Ter um projecto, uma estratégia e uma equipa jovem e ousada, que permite uma aposta sólida em design, qualidade e serviço. Hoje tudo passa sobretudo por oferecer um excelente serviço. E procurando cultivar sempre uma atitude de fazer melhor cada dia. Mas houve um prévio trabalho interior, de olhar para dentro, ver quem somos e o que tínhamos para oferecer. PT – Quais serão os projectos mais imediatos? PA – Esperamos ainda durante este primeiro trimestre poder oferecer a todos os clientes a monitorização das suas encomendas para que sigam a sua evolução, estabelecendo assim uma relação de maior confiança. PT – Que balanço faz destes 50 anosPA – Foram 45 anos de facilidades e 5 anos de loucura!